domingo, 31 de julho de 2016

Conto- Outra História (Tudo Novo De Novo)

Eric do Vale


O mesmo nome e a mesma data de aniversário; seria pura coincidência, se não fosse um detalhe: a diferença de idade. Quando me lembro dos momentos em que passamos juntos, faço das minhas as palavras do Belchior: Na parede da memória, esta lembrança é o quadro que dói mais”.  Esse mesmo poeta, entretanto, afirma que o novo sempre vem, por isso não pretendo cometer o mesmo erro de outrora.
Deus, melhor do que ninguém, testemunhou os percalços que atravessei para conquistá-la. Ela mesma me submeteu a inúmeras provações que homem nenhum, na minha situação, suportaria.
 Já havia me dado por satisfeito, depois dela ter, várias vezes, me dispensado, quando, de repetente, enxerguei uma esperança naqueles lábios. Quantos anos esperei por isso? Alcançado o meu objetivo, eu deveria me segurar e adequar-me aquela situação, mas as coisas terminaram desandando. Por quê?
Sempre que me faço essa pergunta, me dou conta de que eu estava há poucos metros da linha de chegada! É uma pena ninguém ter inventando, até agora, a máquina do tempo.

Visto que, atualmente, encontro-me vivenciando uma situação similar, não desistirei tão facilmente; ela bem sabe disso.  Quando penso que tenho que enfrentar os mesmos percalços, lembro-me, novamente, das sábias palavras do Belchior: “Viver é melhor que sonhar.”.

sábado, 30 de julho de 2016

Conto- Afasta De Mim Esse Cálice

Eric do Vale


“Foi um sonho medonho,
Desses que, às vezes,
A gente sonha e baba na fronha
E se urina toda e já não tem paz.”
(Chico Buarque: Não Sonho Mais)

Aquelas últimas palavras, durante muito tempo, perseguiram o meu subconsciente: “Um dia, terei o desprazer de ficar cara a cara com você.”.  Seria possível isso vir a acontecer? Prefiro pensar que não. Cada vez mais, tenho plena convicção de que fiz a coisa certa; não podia mais tapar os olhos, os ouvidos e fingir que nada estava acontecendo.  Eu tinha que falar tudo o que sabia, pois, as coisas já tinham saído do controle, há muito tempo.   
Só Deus sabe o quanto esperei por aquele dia e quando chegou, titubeei: “E agora?”. Não havia como voltar atrás; era preciso seguir em frente e aguentaras as consequências. E foi o que fiz
Não tive dúvidas de que venci aquele confronto, mas sabia que ninguém deixaria barato. Por isso, me preparei para o contra-ataque.  Dois dias depois, recebi um telefonema, tarde da noite: “Aqui quem está falando é....”.  A reação não poderia ser outra, conforme eu já pressupunha: frases desconexas e palavrões.
 Era a minha vez de ficar inerte e escutar todo aquele absurdo.  Antes de bater o telefone, finalizou: “Um dia, terei o desprazer de ficar cara acara cm você.”.   Aquela oferta que recebi de ir trabalhar no Rio de Janeiro veio a calhar, naquele momento. Não que eu tenha me deixado intimidar com aquela ameaça, mas considerando que aquilo foi dito por alguém habituado a cometer inúmeros atos ilícitos, era preciso ter muito cuidado.
Muitos anos se passaram, e lá estava eu junto com aquele pessoal. E agora? O tempo todo, lembrei-me daquelas palavras: “Um dia, terei o desprazer de ficar cara a cara com você.”.  Quando acordei, olhei para o lado e respirei fundo: “Ufa!”.



domingo, 24 de julho de 2016

Crônica- Para Todos Os Gostos

Eric do Vale


Eu tinha sete anos de idade, quando assisti, no telejornal, a matéria sobre o dia de finados que falava sobre a visita aos "moradores ilustres" do cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Dentre os quais: Paulo Sérgio e Noel Rosa.  
-Quem foi Paulo Sérgio? _ Perguntei para o meu pai.
-Foi um cantor.
-Do que foi que ele morreu?
-De velho.
A conversa cessou ali. A dúvida, no entanto, me perseguiu, por um bom tempo. Vez ou outra, alguém mencionava o nome dele e eu me lembrava dessa história.
Em meados de 1998, assisti, no Vídeo Show, uma matéria, no quadro Túnel do Tempo, falando da morte dele, ocorrida no dia 29 de julho de 1980. O que mais me surpreendeu foi saber que o Paulo Sérgio tinha 36 anos de idade, quando morreu.
No ano seguinte, esse mesmo programa fez uma homenagem a esse cantor lembrando os dezenove anos da morte dele. Naquela ocasião, o Miguel Falabella, então apresentador do Vídeo Show, comentou, antes do VT ir ao ar, que a produção do programa havia recebido inúmeros pedidos para que fosse feita uma homenagem ao Paulo Sérgio e até mostrou o abaixo assinado feito por mil e catorze pessoas.
Então, fiquei sabendo, um pouco, quem era aquele cantor e do que foi que ele morreu: derrame cerebral. O que mais me surpreendeu e, até hoje, me surpreende é que todo o dia de finados, as pessoas, religiosamente, visitam o túmulo dele para prestar-lhe as devidas homenagens.  
A priori, um imitador do Roberto Carlos; Paulo Sérgio, posteriormente, tornou-se um dos precursores do brega romântico, gênero musical que, por meio de uma linguagem coloquial, tinha como público alvo as camadas mais populares.
Muitas vezes, denominado, pejorativamente, de cafona esse estilo de música originou-se no mesmo contexto em que surgiu a nata da MPB: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e dentre outros cujo foco concentrava-se em um público mais intelectualizado. Razão pela qual a nossa sociedade sempre tratou com desdém Paulo Sérgio e seus contemporâneos:  Waldick Soriano, Nelson Ned, Odair José e Agnaldo Timóteo.
O tempo, mais uma vez, mostrou-se sábio, quando Caetano Veloso regravou Você Não Me Ensinou A Te Esquecer, sucesso de Fernando Mendes, na década de 1970.  Comprovando, assim, que a música brasileira, como em qualquer parte do mundo, atingi todas as classes.


Conto- A Vida Real

Eric do Vale


Encontrava-me na biblioteca do colégio, durante o intervalo, folheando uma revista e me surpreendi com a seguinte informação: “John Wayne:1907- 1979””. Aquilo permitiu com que eu regredisse cinco anos.
Entretido com o programa de televisão, o apresentador perguntou: “Qual é a verdadeira identidade do Homem Aranha?” e, em seguida, deu as alternativas: “Maguila; John Wayne; Peter Parker?”.
 Eu, obviamente, sabia que era Peter Parker, mas não contive a minha curiosidade de saber quem era John Wayne. Por isso, perguntei a minha mãe.
-É um ator que só faz filme de cowboy. _ Respondeu ela.
Não demorou para vê-lo em cena, visto que, naquela época, era comum os filmes dele serem exibidos na Sessão da Tarde. Sem esquecer que o meu pai sempre gostou de filmes de Bang bang.  Com um chapéu de vaqueiro e um tapa-olho, essa foi, para mim, a primeira imagem que eu tinha dele, em minha memória.
Um tempo depois, vi essa foto dele em uma revista e perguntei para o meu pai:
-Ele já morreu?
-Sim.
Não acreditei no que tinha acabado de ouvir. Meses depois, fiz essa mesma pergunta e ele, novamente, disse que sim.  Foram necessários cinco anos para que eu tivesse a absoluta certeza de que era tudo verdade.           

Conto- A Vida Real (Parte 2)

Eric do Vale


Com seis anos de idade, eu estava naquela fase de querer saber de tudo
-Quem é George Bush? _ Perguntei para a minha mãe.
-É o presidente dos Estados Unidos.
-Onde mora?
-Nos Estados Unidos.
Naquela ocasião, fui descobrindo, aos poucos, o que era a morte. A minha mãe, sempre que se referia a alguém que já morreu, dizia:
-Mora com Papai do Céu.
Uma vez, lembro-me que perguntei a ela:
-Onde mora o Michael Jackson?
-Nos Estados Unidos.
-Elton John?
-Na Inglaterra.
-Elvis Presley?
-Com Papai do Céu.
-John Lennon?
-Com Papai do Céu.
Nessa mesma época, passava na televisão os filmes do Gordo E O Magro e eu assistia diariamente. O que eu sabia deles, até então, era que O Gordo chamava-se Oliver Hard e O Magro era o Stan Laurel.
Um dia, fui a uma festa de aniversário de um vizinho meu e vi os bonequinhos do Gordo e o Magro decorando o cômodo daquela casa. quando ouvi alguém falando:
-Olha, O Godo e O Magro!
Por uns instantes participei daquela alegria até colocar os pés no chão e me situar na realidade: dias antes, tive a impressão de ouvir o meu pai dizendo que o Oliver Hard havia morrido. Custei a acreditar, por isso perguntei a ele:
-Onde moram O Gordo e O Magro?   
-Eles já faleceram.
Depois de ter ouvido aquilo, fui dormir com um aperto no peito. Apesar de ter ficado sabendo, muito tempo depois, que eles morreram antes mesmo de eu nascer, aquela noticia me provocou tamanha resignação.



sexta-feira, 22 de julho de 2016

Conto- Subconsciente

Eric do Vale



Era bastante comum, no final da sessão, o meu analista perguntar-me se, durante a semana, eu tivesse algum sonho que gostaria de compartilhá-lo. A minha resposta, naqueles três anos de analise, sempre foi não. Depois que recebi alta, ficou combinado de que eu poderia procurá-lo, caso achasse pertinente. Somente agora, tive essa vontade. Mas, desisti da ideia, porque, no meu entender, eu já tinha a resposta para aquilo.  
Hoje, não tirei da minha cabeça aquela música, Girl, You'll Be A Woman Soon. E até sei o porquê: ontem, assisti, pela televisão, Pulp Fiction: Tempo de Violência. Ela pode não ser mais uma garota, mas, para mim, sempre será, por isso eu canto: “Girl, You'll Be A Woman Soon”; “Please, come take my hand”.
 Aquela única vez que nos encontramos valeu por toda a vida! Não há um dia que eu deixe de contemplar a beleza dela, pelo Faceboock, e me pergunto: “Haverá alguma chance de, um dia, nos encontrarmos novamente? Se depender de mim, sim. E ela bem sabe disso.
Hoje, se ela chegasse para mim e dissesse: “Eu quero você”, eu, sinceramente, diria que sim.  Contudo, tenho que cair na real: atualmente, encontro-me casado e, por sinal, com uma mulher maravilhosa. Talvez, seja esse o motivo dela me evitar, sempre que teclo ou tento telefonar-lhe. Nunca entendi direito o motivo dela não querer mais falar comigo. Por isso, não a procurei mais.
Depois que o filme terminou, fui dormir. O que foi aquilo? Acordei, tomei banho e fui para o trabalho pensando no que tinha sonhado: estava em uma casa de veraneio, quando a vi chegando. Então, fomos passear pela praia.  Acessei o Faceboock, vi, mais uma vez, as fotos dela e cantei: Girl, You'll Be A Woman Soon”; “Please, come take my hand”.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Conto- O Aparelho De Som (Mea-Culpa)

Eric do Vale


Tenho uma vaga lembrança daquele aparelho de som que ficava na sala da nossa casa: era de última geração. A minha mãe sempre falava desse rádio com uma certa tristeza, porque o filho da senhora que trabalhava na nossa residência o danificou.  
Eu devia ter, mais ou menos, uns quatro ou cinco anos de idade e, um dia, estava brincando com os meus brinquedos, na sala, quando inventei de mexer no toca fitas. De repente, a portinha do aparelho soltou-se.
Inconscientemente, eu sabia que os meus pais ficaram bravos comigo, quando vissem o que fiz. De fato, foi o que aconteceu. Todavia, o filho da empregada terminou carregando aquele fardo.
Diariamente, ela o trazia para a nossa casa. Lembro-me que ele não era de falar muito e quando isso, raramente, acontecia, expressava-se muito mal.
-A última pessoa que trabalhou aqui, em casa, tinha um filho que não falava quase nada, porém era muito levado. Esse menino mexia em tudo e até quebrou um rádio que tínhamos acabado de comprar_ Disse o meu pai, certa vez, para um conhecido dele.
A minha mãe não deixou barato:
- Depois que esse menino estragou o nosso aparelho, a mãe dele não continuou trabalhando mais aqui, em casa.
Muitos anos depois, quando voltávamos das compras, a minha mãe me perguntou:
-Lembra-se daquele som que tínhamos e aquele menino estragou?
Não me contive:
-Fui eu quem quebrei?
-Você?
-Não se lembra? Eu estava brincando com os meus brinquedos e aí...
-Está se referindo a portinha do toca fitas?
-Sim.
- Aquilo foi o de menos, comparado com o que aconteceu, depois.
Naquele momento, tomei conhecimento de um fato que, até então, eu desconhecia.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Conto- Acontecimentos

Eric do Vale



Tirei um rápido cochilo e acordei com o barulho da televisão, vindo da sala.
-O filho dele, até agora, não está acreditando. _ Disse a minha mãe. 
Dirigi-me até a sala meio sonolento, onde pude ver, pela televisão, o velório daquele político que estava sendo transmitido ao vivo.  Quarenta e oito horas atrás, ele encontrava-se presente no funeral de um ministro e até deu entrevista, lamentando a morte do colega.
Ontem mesmo, lembrei-me disso, assim que soube da internação dele, causada por um enfarte. Tal lembrança adquiriu maior ênfase, quando, horas depois, foi anunciada a morte dele. 
Dois dias antes, eu estava assistindo a um programa da MTV em que o VJ conversava, pelo telefone, com um telespectador:
- Esta semana foi muito pesada, não acha? Na quinta-feira, morreu mais uma vítima da violência, em São Paulo. Na sexta-feira, faleceu a Linda McCartney; no sábado, foi o Nelson Gonçalves e agora, o ex-Ministro das Comunicações.
Aquele comentário dele fazia muito sentido.
No dia seguinte, fui para escola pensando naqueles últimos acontecimentos. O astral, por lá, também não estava muito agradável.
 Da mesma forma que grande parte da população acreditava que aquele jovem político alçaria voos mais altos na promissora carreira, tudo levava a crer que seriamos mais do que melhores amigos,
Perto de terminar a aula, ela me procurou querendo uma informação. Surpreso, comentei:
-Pensei que estivesse magoada comigo.
-Ainda estou.
Como foi duro para mim escutar aquilo!
Diante da televisão, eu me questionava a razão de tudo aquilo ter desandando. Naquele instante, lembrei-me de que as notas semestrais seriam lançadas, no dia seguinte. Outra coisa a mais que também passou ame preocupar.

Retomada, por alguns instantes, a programação exibida naquele canal, assisti a reapresentação de uma telenovela que aproximava-se dos capítulos finais. Contemplei a cena do casal principal que, embalados pelo som de Kenny G, conseguiam ficar juntos, após vários desencontros. Além de me confortar bastante, aquilo me trazia um certo norte.   

terça-feira, 19 de julho de 2016

Conto- Arquivo Morto

Eric do Vale


- Boa noite! _ Falou ela.
-Boa noite. _ Respondi para não ser grosseiro.
-Há quanto tempo! Tudo bem?
-Sim.
-Não quer conversar?
Perdi a conta das vezes em que me fiz de desentendido para não conversar com ela. Lembro-me que, um dia, abri o meu e-mail pessoal, durante o expediente, e dentre muitas mensagens que recebi, estava a dela querendo saber como eu estava.
Continuei agindo assim até me convencer de que não dava para fugir e, portanto, era necessário encarar aquilo de frente.
-Por que acha que não quero conversar? _ Perguntei.
-Depois nos falamos.
-Espere aí.
Por que eu tinha que dizer aquilo?
-Vai para o show do...? _ Perguntou   ela.
Até parece que eu gosto desse tipo de música!
 Procurei manter a calma e respondi:
-Não.
-Mas, eu vou.
Depois, despediu-se.
Senti-me aliviado, mas, de repente, ela retornou:
-De vez em quando, fico recordando das nossas loucuras. 
Detalhadamente, ela foi lembrando cada uma. Pensei em me despedir dela, inventando alguma desculpa.
-Ainda tenho a agenda que você me deu. _ Falou ela.
Fiquei em silêncio e ela prosseguiu:
-O meu número continua o mesmo.
Me fiz de desentendido e ela perguntou:
- Você tem ainda as nossas fotos?
-Não sei.
-Não sabe?
Fiquei sem responder nada e ela finalizou:
-Deixa pra lá.
Depois de dez anos, ela já deveria ter superado aquilo.
-Vou saindo aqui. _ Falou ela.
Não tive mais dúvida: melhor deixar tudo do jeito que está.  

sábado, 16 de julho de 2016

Conto- Rato De Esgoto (Repugnância)

Eric do Vale


Já reparou que sempre que conversamos, terminamos nos desentendendo? Por quê? O tempo todo, tenho me feito essa pergunta e a única resposta que consigo encontrar é esta: incompatibilidade de gênios. Essa seria a justificativa mais plausível, porém reconheço que também possuo um temperamento muito forte. E sendo assim, refaço a minha pergunta: “Por que estamos, sempre, atritando, um com o outro?”. Uma coisa é certa: somos muito diferentes.
Qual é o seu interesse de saber da minha vida? Sei muito bem qual vai ser a sua resposta: “Todo dialogo gera uma pergunta.”.  Estou completamente de acordo com essa sua afirmação; mas, honestamente, considero a maneira como você faz a abordagem um tanto invasiva e inconveniente. Por isso, quero te lembrar que não temos nenhuma intimidade, apesar de termos tido uma certa convivência diária, em um tempo bastante remoto. 
Quando não é você, é aquele desequilibrado do seu irmão que fica querendo saber de coisas da minha vida que, certamente, não devem interessar a vocês, como: onde eu trabalho; se tenho carro; se bebo ou fumo; se moro só ou não.
Sabe de uma coisa? Não me impressiona nem um pouco que vocês portem-se dessa maneira, levando-se em conta de quem são filhos:  um pai alcoólatra e uma mãe mal-amada.


domingo, 10 de julho de 2016

Conto Emaranhados


Eric do Vale 


“Bem vindos aqui, o trem já vai partir
Desarmem suas tendas temos muito a descobrir”                                                    
 (Esse Mundo: Vange Leonel & Cilmara Bedaque) 

1

Naquela reunião de domingo, o assunto não podia ser outro: a separação de Antônio Carlos e Nair. A união chegou ao fim, após quinze anos de vida matrimonial. Aquilo, no entanto, não era nenhuma novidade, porque sabiam que o casamento deles vinha capengando, há muito tempo. E as coisas ficaram de mal a pior, quando o único filho deles foi abatido pela leucemia.
-Na verdade, a Nair nunca gostou dele. _ Opinou Alberto.
-Alberto! _ Censurou a esposa dele.
-Estou falando alguma mentira? Todo mundo, aqui presente, sabe que a Nair nunca foi apaixonada pelo Antônio Carlos.
-Mas, ele era louco por ela. _ Falou Cecilia. – Fazia todos os gostos dela.
- Não era isso que eu ouvia dizer. A própria Nair, várias vezes, disse que o Antônio Carlos era um mão de vaca, além de um cavalo batizado. E não foi só para mim que ela disse isso. _ Comentou Dolores.
Todos concordaram e Fernanda foi enfática:
-O Antônio Carlos pode ter mil e um defeitos, mas a grande responsável pelo fim do casamento foi a Nair. Não é porque ela é minha irmã que eu vou passar a mão na cabeça dela. A mamãe sabe disso perfeitamente, embora não admita. E como disse a Cecília: ele sempre foi apaixonado por ela e fazia os gostos dela.
-Mas não foi a própria Nair quem quis se separar? _ Perguntou Dolores.
-Exato e eu vi tudo: eles estavam aqui, em casa, quando a Nair começou a se queixar da vida falando que não estava muito feliz com o casamento e que não aguentava mais. O Antônio Carlos, inclusive, estava sentando nessa mesma cadeira onde, agora, encontra-se o Alberto.
-Ela falou tudo isso na frente dele? _   Perguntou Dolores.
-Sim. Foi de fazer pena. Mas, ele, depois que ouviu tudo, levantou-se e disse: “Nair, você quer se separar?”.  Ela ficou calada e ele continuou: “Amanhã, nós vamos ao fórum e resolveremos isso tudo.”. E assim, encerou a conversa. 
-Pelo que fiquei sabendo, Fernanda, a sua irmã tentou voltar atrás.
-Tentou, mas ele é que, dessa vez, não quis saber mais dela.  Tenho para mim que no momento em que a Nair fez aquele desabafo, a ficha tinha caído para o coitado do Antônio Carlos. 
A única coisa que Fernanda não falou referente a irmã foi sobre a traição que essa vinha pregando sobre Antônio Carlos. Todos ali presentes tinham conhecimento daquilo, pois não era segredo para ninguém.
Cecilia, certificando-se de que Fernanda não estava por perto, falou:
-A Nair é muito burra. Como é que ela deixa um pedaço de mau caminho daquele solto na pista?
2

- Eu estou com medo_ Disse Mariana deitada sobre o divã.
-Medo de quê? _ Perguntou o analista.
-Medo de enfrentar a realidade, de entender....
-Entender o quê?
Ivan chegou em casa e viu a mesa posta. Os dois filhos dele já estavam jantando e ao perguntar pela esposa, Tiago, friamente, lhe respondeu:
-Mamãe está no quarto e falou que não vai jantar.
- Por quê?
-Está indisposta. _ Levantando-se.     
Ivan foi até o quarto e vendo Mariana deitada, perguntou:
- O Tiago me disse que você estava indisposta, está tudo bem?
-Só uma enxaqueca.
Os filhos já estavam praticamente encaminhados para a vida e tudo levava a crer que, futuramente, Ivan e Mariana teriam mais tempo um para o outro.
Questionada pelo analista sobre a razão de tudo aquilo estar acontecendo, Mariana respondeu:    
-Se você me perguntar como foi que as coisas, de repente, ficaram do jeito que estão, não saberei responder. Não posso negar que o Ivan sempre foi um bom marido e um pai maravilhoso. Agora, fazendo um balanço da minha vida de casada, percebo que o meu marido teve um amor distante, mesmo nos nossos momentos mais quentes. Ele sempre foi cerimonioso comigo, com os filhos e com quem quer que fosse. Isso esteve incutido na personalidade dele. Tenho medo de que o Tiago perca a razão e faça alguma besteira. O meu outro filho, graças a Deus, não sabe de nada, mas já percebeu que alguma coisa está acontecendo.  E pelo andar da carruagem, não vai demorar muito para que, brevemente, tome conhecimento disso.
Tiago chegou em casa bastante emburrado e Mariana perguntou:
-Está havendo alguma coisa?
Tiago relutou até que abriu o jogo:
-O papai e aquele Bruno.
Ele se referia ao rapaz que o pai conheceu recentemente.  
-O que é que tem? _ Perguntou Mariana.
- Eu vi os dois no shopping combinando de almoçar e depois, iriam ao cinema.
- E daí?
Por mais que Mariana contra -argumentasse, sabia, intimamente, que o filho tinha razão. Então, ela desabafou com o analista:
-O Ivan sempre foi muito rígido com o trabalho dele e por isso, é justo que tenha todo o direito de arejar um pouco. Além do mais, ele nunca me impediu de fazer nada que eu quisesse. Por exemplo, o Ivan jamais se incomodou que eu saísse com as minhas amigas e fosse ao cinema com elas. Até falei isso para o meu filho que me respondeu o seguinte: “Não é a mesma coisa, mãe!”. Aquilo soou como um balde de água fria na minha cara. Eu não quero ser injusta com o meu marido, mas não posso negar que, de uns tempos pra cá, tenho me sentido incomodada dele ficar pra cima e pra baixo com esse homem. 
 Ivan perguntou se ela estava precisando de alguma coisa.
-Acho que está mais do que na hora de você e eu termos uma conversa. Feche a porta, por favor. _ Falou Mariana. 
3

Durante o trajeto para a casa, Alberto comentou com a esposa:
- Além de simpática, é muito bonita aquela amiga da Nair.
A esposa dele, nessa hora, teve uma crise de risos e Alberto ficou sem entender. Recuperando-se, ela falou:
-Só você mesmo, Alberto, para pensar uma coisa dessa!
-Pensar o quê?
-Que aquela moça que vimos com a Nair, no shopping, é amiga dela. Francamente!
-Não brinca!
-Há muito tempo que eu sabia disso.
-Por que nunca me contou?
-Pensei que você soubesse.
-Está aí uma coisa que eu não sabia e se você não tivesse me contado, morreria sem saber.
-Eu sabia disso, desde a época em que ela era casada com o Antônio Carlos.
-Eu sabia, por alto, que a Nair enfeitava a cabeça dele, mas nunca poderia imaginar que fosse dessa maneira. Coitado do Antônio Carlos! Por falar nisso, eu, recentemente, o vi, e pelo jeito, ele está em outra.
-É?
-Lembra-se da Mariana, aquela que foi casada com o Ivan?
-Claro que eu me lembro. Até estudamos juntas, durante o Ensino Médio.
-O Antônio Carlos está namorando com ela. 
-Coisa boa! Ele merece ser feliz e ela também.
-Engraçado, a Mariana e o Ivan eram um casal tão bonito e de repente, terminaram se separando.
-Pra você ver como são as coisas.
-Até agora, eu jamais entendi a razão deles terem se separado.
- Eu também não. Aliás, ninguém nunca entendeu isso direito.
- O mais surpreendente é que depois disso, o Ivan evaporou.
-É verdade.

sábado, 9 de julho de 2016

Conto- Em Panos Quentes


 Eric do Vale 

I

Já passava das vinte horas, quando dois homens bem apresentáveis dirigiram-se até recepção e perguntaram por João Augusto. A recepcionista telefonou para o ramal dele e falou:
-Tem dois homens querendo falar com o senhor.
-Mande-os subir.
Ela fez o que ele pediu, mostrando-lhes onde ficava a sala dele. Lá chegando, sacaram suas armas e anunciaram o assalto. João Augusto abriu o cofre e entregou-lhes todo o dinheiro. Eles colocaram na sacola e saíram como se nada tivesse acontecido.
II

Era quase meio dia, quando Demóstenes a viu chegar.  Cabisbaixa e de óculos escuros, ela caminhou até a sala dela, dando a impressão de que estava voltando de algum funeral. Demóstenes, então, pensou: “Melhor eu me preparar”.
Não encontrando o seu celular, ela o procurou por todo o cômodo até lembrar-se de que Roberto havia sido a última pessoa presente naquela sala.  Mesmo dizendo-se inocente, a situação ficou complicada para o lado dele. 
Na qualidade de gestor de Roberto, Demóstenes poderia ter falado com ela e a convencido a dar-lhe um voto de confiança Porém, preferiu seguir o exemplo de Poncio Pilatos. 
Demóstenes achou melhor não sair para almoçar e assim que o telefone tocou, atendeu e ouviu a voz dela:
            -Venha até aqui, por favor.
...

Paulo não conseguia acreditar que Magno fosse capaz de ter feito o que fez:
- Será que ele é cleptomaníaco? _ Perguntou Paulo.
- Não seja ingênuo, Paulo. As câmeras registraram o momento em que ele entrou na sala do doutor Arnaldo e abriu a carteira dele, tirando todo o dinheiro. O problema do Magno chama-se safadeza.
Dinheiro, tablete, notebook e celular, esses eram alguns dos objetos que vinham desaparecendo dentro daquela empresa.
 Bianca, a priori, pensou que tal atitude fosse de algum novato, mas a tese dela caiu por terra, quando soube que uma certa quantia de dinheiro havia sido retirada da bolsa de uma recém contratada.
            Paulo colocou o celular para carregar, quando Magno aproximou-se dele e os dois começaram a conversar. Como tinha uma reunião marcada, despediu-se de Magno e ao voltar, reparou que o seu celular não estava mais sobre a sua mesa, onde o havia deixado. Era a segunda vez, em menos de um mês, que aquilo acontecia  
...

Demóstenes fechou a porta e sentou-se em uma cadeira.
-Perdemos. _ Disse ela.
Quando Roberto resolveu colocar a firma na justiça, eles sabiam que aquilo resultaria em fortes dores de cabeça.
-Mas, nós vamos recorrer. _ Falou ela.
Demóstenes estava ciente de que, dessa vez, não teria para onde correr.
III

- Esse Demóstenes é muito esperto! Tratou de sair de férias e viajar para não comparecer na audiência.
- Ele tinha duas opções: ficar do lado do Roberto ou defender os interesses da firma. Qualquer escolha que fizesse, o deixaria em maus lençóis. Eu no lugar dele, teria feito o mesmo.
-Se pudesse, o Demóstenes deporia em favor do Roberto; não que ele goste do rapaz; mas sim pelo bel prazer de destroná-la. Não é segredo para ninguém, aqui da firma, que o Demostenes é louco para ocupar o cargo dela.
-E como ele sabe muito dos podres nela, essa seria a chance de derrubá-la.
- Só que tem um porém: ela também sabe de muita coisa que podem comprometê-lo.  
...
-Todo mundo sabe que a Bianca não suporta o Victor e mesmo assim, resolveu promovê-lo.
-Depois que descobriram as safadezas do Magno, ela achou por bem promovê-lo como forma de reparação.
-Mesmo sabendo que não tinha nenhuma evidencia para incriminá-lo, a Bianca queria degolá-lo.
-Mas, quando viu a burrada que ia fazer, achou melhor aparar as arestas, o quanto antes.
- Aqui, nessa empresa, as arestas tem sido aparadas com muita frequência. O Magno é um exemplo disso: em vez de o demitirem por justa causa, deram as contas dele.
-E o que é que você queria que fizessem? Se ele fosse demitido por justa causa, o Ministério do Trabalho iria querer saber os motivos e a polícia seria acionada.

IV

Não se falavam de outra coisa, naquela firma, que não fosse ao assalto, ocorrido no dia anterior. Como eles sabiam que o João Augusto era o responsável pelo departamento financeiro?
Outra pergunta que deixava todo mundo intrigado: como eles sabiam da existência daquele cofre? Somado a tudo isso, eles haviam passado pelos locais onde não foram instaladas nenhuma câmera.
A polícia jamais ficou sabendo desses detalhes; cada colaborador tinha a sua versão definida, mas todos sabiam que aquilo seria mais um “fato extraordinário” que aconteceu naquela empresa.








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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Conto- A Bola Da Vez


                                Eric do Vale

1

Aquela barulheira toda fez com que Zenóbio despertasse; era um entra e sai de guardas que não acabava mais. Pelo que pode constatar, a coisa era séria. Pudera, aquele alvoroço todo em plena duas horas da madrugada.
Um guarda trouxe um rapaz, de vinte e poucos anos, algemado e o colocou na mesma cela onde Zenóbio estava.  Esse, sentou-se em um colchonete e Zenóbio cogitou até em falar com ele, mas falar o quê?
...
Há qualquer momento, a bomba iria estourar e Hernani sabia disso perfeitamente. O quanto antes, ele deveria apresentar-se à delegacia e confessar tudo. Na direção do seu carro, Hernani só pensava em fugir, mas para onde?
A polícia, naquela altura do campeonato, já devia estar no encalço dele. E pensou no que havia dito a Madalena, antes de dar os três disparos: “Se a minha vida, para você, não vale um vintém, a sua muito menos”.
...
O rapaz continuou sem dizer nada e Zenóbio não somente respeitou como também compreendeu aquela perplexidade dele, visto que, na semana passada, havia passado pela mesma situação: rodeado por várias câmeras ao som de um interminável coro de xingamentos.

2

A criação de uma cooperativa de pequenos empresários foi a chance que Zenóbio Landini encontrou de lançar-se na política, sonho perseguido por esse desde os tempos de estudante secundarista.
Eleito três vezes seguidas para vereador, ele, atualmente, encontrava-se no seu segundo mandato consecutivo de deputado estadual, mas de olho em uma vaga na câmara federal. 
A tão meteórica e promissora carreira política dele, entretanto, terminou sendo abreviada, quando foi comprovado que Zenóbio Landini liderava um esquema de corrupção responsável pela abertura de empresas fantasmas. Logo, a prisão preventiva dele foi decretada.
3

Hernani Fonteles tinha a idade de ser pai de Madalena. Ele era um conceituado advogado e lecionava na faculdade, onde ela estudava.  Sendo casado, passou a cortejá-la de forma discreta e, por alguns meses, mantiveram um romance secreto até a esposa dele descobrir tudo. A separação foi conturbada e pouco tempo depois, Hernani e Madalena assumiram a relação afetiva.
Madalena estava perto de se formar, quando conheceu Cleber, um rapaz da idade dela e que também estudava Direito.  Há tempos que ela tinha perdido o encanto por Hernani. Esse, por sua vez, não se conformava e várias vezes a procurou para reatarem.
Com um 38 na cintura, Hernani foi até a casa de Madalena para pedir uma reconciliação, mas ela falou que já estava namorando outro:
-Eu sei disso_ Falou Hernani. – Por que não tentamos reatar?
-Eu bem que gostaria, mas não dá.
-Depois de tudo? Desfiz o meu casamento, quase coloquei a perder a minha reputação...
- Foi você quem quis assim.
-É assim que você pensa? Se a minha vida não vale um vintém, a sua muito menos.
Sacou o seu revólver e deu três disparos.
E em seguida, fugiu. Hernani apresentou-se a polícia, dois dias depois do crime.

4

Sidney era descrito por seus colegas como uma pessoa de temperamento inconstante: as vezes introspectivo, ou chegado a arroubos. Ele já tinha passagem pela polícia, por ter agredido a ex- esposa dele. 
Uma noite, Sidney chegou na boate, sentou-se e pediu uma bebida. Observou a multidão e depois, foi ao banheiro.  Lá, tirou do bolso uma pistola automática, atirou no espelho e saiu.
Foi para o centro da pista e atirou para cima. Em seguida, mirou na multidão e alvejou de forma aleatória até ser imobilizado por duas pessoas não apresentando resistência.

5

Esvaziadas as gavetas, Mariana tinha a certeza de dever cumprido. Aquele meses foram repletos de fortes emoções: inúmeras ocorrências que renderam matérias para todos os órgãos de imprensa.
No meio daquilo tudo, ela recebeu a notícia de que, finalmente, havia sido convocada para tomar posse no cargo de juíza. Esse era o sonho da vida dela pelo qual tinha se preparado bastante.
Mariana, depois de despedir-se dos seus colegas, deu um pulo até o xadrez e lá, cumprimentou cada um, antes de sair, e contemplou a cela onde Zenóbio Landini dividia com Hernani Fonteles e Sidney Noronha.




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