quarta-feira, 26 de julho de 2017

Conto- Tudo Outra Vez


Eric do Vale


(Ao som de Por Enquanto)


               
Fiquei fora de casa, por duas semanas: viajamos para comemorar os festejos de final de ano e quando voltamos, recebi um convite para passar as férias no interior. Naquela cidadezinha, eu me sentia um rei: estava totalmente desprendido de qualquer compromisso. Quando voltei, definitivamente, para a casa, faltava uma semana para as aulas começarem. Agora, era necessário retornar a realidade e, acima de tudo, encará-la:
Pouco antes de entrar de férias, eu já sabia que muita coisa iria mudar; no entanto, a ficha só caiu, naquele primeiro dia de aula: algumas pessoas que haviam estudado comigo, no ano anterior, também migraram para o turno da manhã.
 Aquilo, aparentemente, era muito bom, mas não significava muita coisa para mim, porque eu não tinha por perto os meus amigos de outrora. Na verdade, havia sim um que integrava o meu ciclo de amizades, porém esse não estava na mesma sala que eu. Talvez, seja por isso que, no decorrer do semestre, fomos nos distanciando.   
Assim que comecei a estudar naquele colégio, fiz amizade com um garoto e os nossos laços foram se estreitando, durante todo aquele ano letivo. Durante o intervalo, não nos desgrudávamos por nada e conversávamos bastante.
 Esse meu amigo, no ano seguinte, mudaria de colégio. Pelo jeito, o nosso distanciamento seria inevitável. Nunca me esqueci daquela frase dele, no último dia de aula, quando nos despedimos:
-Um dia, nós vamos nos encontrar.
Naquele mesmo dia, aconteceu outro fato marcante:  um colega de sala veio me dizer o seguinte:
-Me perdoe.
Por que estava me falando aquilo?
 Era verdade que, desde que comecei a estudar lá, ele não largava do meu pé, mas, pouco tempo depois, fomos nos entendendo. Nunca entendi direito o porquê dele ter me pedido desculpas. Para mim, tudo, naquele momento, já havia sido resolvido e eu, francamente, tinha me esquecido das nossas desavenças.

Ele também não estudaria mais naquele colégio, no próximo ano. Lá estava eu, naquela sala, iniciando um novo ano letivo com uma turma nova e, ao mesmo tempo, me lembrando de tudo aquilo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Conto- Cenas Dos Próximos Capítulos

Eric do Vale


A televisão estava sintonizada naquele canal, onde, dentro de alguns instantes, iria ao ar mais um capítulo daquela novela. Eis que o locutor, naquele horário, fez o seguinte comunicado: “Por motivo de força maior, hoje, será reapresentado o capítulo anterior.”. Ninguém entendeu direito o motivo daquele aviso e o locutor finalizou: “A novela voltará a ser exibida amanhã”.
Como consolo, restava rever o capitulo de ontem. A noite, naquele mesmo horário, a situação foi a mesma: o narrador, dessa vez, disse que a novela voltaria a ser exibida na próxima semana.
...

Ela possuía os ingredientes necessários para uma trama, por isso foi escrita de maneira despretensiosa. Gradualmente, a telenovela foi arrebatando uma boa margem de telespectadores e em seguida, tornou-se líder absoluta de audiência naquele horário. Entretanto, a emissora de televisão que produzia aquela novela vinha, há muito tempo, atravessando uma enorme crise financeira.
Diariamente, os funcionários reclamavam dos salários que estavam atrasados, há mais de dois meses. Algumas programações vinham sendo retiradas das grade abruptamente
A produção e o elenco da novela deram prosseguimento, assim como os autores eu não cessavam de escreverem os capítulos. Todos tinham interesse de levar aquele trabalho adiante, no entanto a emissora sucumbiu à crise e demitiu todos sem aviso prévio.

...

Sete dias depois, acomodados no sofá, todos aguardavam ansiosamente a volta daquela trama, quando foram surpreendidos pelo seguinte aviso: “Por motivo de força maior, iremos reapresentar o compacto de uma outra novela”.
Tamanha foi a perplexidade, que todos se entreolharam sem saber direito o que dizer. Não escondendo a resignação que, naquele momento, sentiam, cada um foi se levantando.
O silencio só foi quebrado, quando alguém desligou a televisão e disse dum palavrão qualquer. Aquela revolta não era para menos: por que aquilo foi acontecer justamente quando faltavam vinte capítulos para o termino!


domingo, 16 de julho de 2017

Crônica- Nem Tudo É Aquilo Que Parece Ser

Eric do Vale


Uma senhora comentou que, quando jovem, foi repreendida pela mãe, ao cantar a música Mon Amour Meu Bem Ma Femme. Só por causa da última palavra, feeme.  Além de estranho, esse escarcéu, para os dias de hoje, pode ser considerado como algo engraçado, visto que tal termo não apresenta nenhum significado chulo
Qualquer pessoa que se interesse em aprender uma língua estrangeira perceberá, quando procurar no dicionário, que femme nada mais é do que mulher. Assim que comecei a estudar francês, observei que, na maioria das vezes, alguns termos estrangeiros, quando incorporados na gíria brasileira, adquirem um sentido pejorativo.
A coerência dessa afirmativa pode ser constatada no final do século XIX e início do Século XX, período em que a população brasileira aderiu ao padrão cultural francês. Um exemplo típico são os bares, confeitarias e restaurantes que passaram a ser chamados cafés ou bestrau.
Os bordéis brasileiros também adotaram esse tipo de comportamento, daí alguns termos utilizados pelas “femmes” desse estabelecimento. Por isso, a língua francesa passou a ser hostilizada pela ala tradicional e puritana do nosso país. Mesmo que, atualmente, o inglês ocupe o pedestal de idioma universal a língua francesa, nos dias atuais, apresenta, injustamente, um quê de pecaminosidade, aqui no Brasil.  
Rendez-vous é um exemplo disso: em seu país de origem, significa encontro; enquanto que aqui, no nosso país, essa palavra apresente uma outra conotação. E, diga-se de passagem, bem pejorativa.
Da mesma forma, é o termo Madamme: uns poderão achar que essa palavra esteja vinculada a uma mulher refinada e detentora de posses, quando, na verdade, era utilizada pelas cafetinas.
Ninguém tem obrigação de conhecer uma língua de forma tão aprofundada, mas, diante desse exemplo, torna-se necessário possuir uma noção básica na iminência de evitar-se certos choques culturais.


sábado, 8 de julho de 2017

Conto- Amor- Próprio

Eric do Vale


“Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha”
(Meu Mundo E Nada Mias: Guilherme Arantes)

I

Por pouco, não cometeram um desatino. Acalmado os ânimos, era necessário dar aquilo por encerrado:
-Arrume as suas coisas e vá embora daqui.
O que seria mais doloroso, dizer ou ouvir aquela frase? Depois de tantos anos, não era justo! Se houvesse traição de uma das partes, aquilo seria compreensível; mas, por causa de uma rusga...

II

-Nunca é tarde para recomeçar.
-Estou completamente de acordo e sabe que pode contar comigo para o que der e vier.
-Agradeço muito a sua preocupação; agora, preciso colocar a cabeça no lugar. Apesar de tudo, não guardo nenhuma mágoa.
-Sei disso. Quem dera, se todos fossem assim. Olha, não sou só eu que acha isso de você: conheço alguém que também sabe reconhecer esse seu valor.   E não sou só eu que pensa assim sobre você. Muitos, inclusive....
-Não está se referindo a ...
-Sim, estou. Tenho certeza de que se você pedir...
-Eu poderia fazer isso, mas tenho brio.

...
- De uns tempos para cá, venho notando que você tem falado pouco, andado distante de tudo. Estou aqui, a horas, conversando com você e sequer prestou atenção no que te disse.
- Eu estou com a cabeça tão atordoada, me desculpe!
-Como te disse: não é de hoje que você está assim. E até sei por que. Sejamos realistas: você nunca se conformou com esse rompimento
-Para te dizer a verdade: não. Eu, por mim, voltaria atrás.

-E o que te impede de fazer isso?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Conto- A Minha “Primeira” Causa

Eric do Vale



Pouco tempo depois de ter conseguido a carteirinha da OAB, alguém que eu conhecia, de longa data, telefonou-me requisitando os meus serviços.
-O que posso ser útil? _ Perguntei.
-Quero mover um processo contra... Eu não aguento mais! Todo dia, é esse inferno!
Eu já sabia do que se tratava e não condenava de fazer tais comentários, visto que qualquer um também agiria da mesma maneira.
 Todo mundo daquele prédio tinha conhecimento das homéricas brigas daquela família. Várias vezes, a polícia foi acionada para conter aquela tensão toda. Daí, a alcunha de “casa de doido”. 
-Todo mundo tem seus atritos, mas pelo amor de Deus! Ninguém é obrigado de escutar tudo aquilo É de manhã, de tarde e de noite escutando gritos e xingamentos! Você sabe o que é isso? _ Disse a minha futura cliente.
Entendia perfeitamente aquele desabafo, mas abdiquei da minha primeira causa, porque eu também conhecia aquele pessoal.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Conto- O Silencio (Melhor Do Que Nada)

Eric do Vale



Não poderia deixar de perguntar pelo irmão dela, assim que nos vimos, pois esse tinha sido meu amigo de infância.
-Ele está muito bem. _ Disse ela.
- E o que ele está fazendo da vida?
- Trabalha em uma xácara como caseiro.  Ele é muito inteligente, tem uma bela caligrafia!
Não entendi o porquê dela ter me dito aquilo.  Eu devia ter uns dez ou onze anos de idade, quando ela me viu escrevendo alguma coisa e disse:
            - Sua letra continua igual.
Aquela resposta soou como um soco no estômago. Todo mundo me dizia que a minha letra não era bonita, inclusive ela. Mesmo assim, não deixava aquilo me abater e por isso, procurava aperfeiçoá-la sempre. Seria pura desonestidade de minha parte dizer que não fiquei chateado, quando ouvi aquele comentário
Somente agora, depois de ter alcançado a maturidade, percebi o quanto supervalorizei tal episódio, assim como entendi que ela não falou aquilo por mal. Mas, a maneira como expressou o seu ponto de vista...
Os elogios tecidos por ela a respeito da bela caligrafia do irmão possibilitaram-me pensar no seguinte: “Posso não ter uma boa caligrafia, mas possuo curso universitário e já tenho uma posição definida, ao contrário de você e do seu irmão.”. Aquelas palavras estavam atravessadas na minha garganta e não tinha nada a perder, caso lhe dissesse aquilo. Mas, recuei. Por quê? Foi melhor assim. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Conto- As Minhas Cunhadas

Eric do Vale



Para José Anselmo Souza de Oliveira

Deus, melhor do que ninguém, sabe o quanto amo a minha família:  esposa, filhos, genro e nora. Quanto aos demais... Refiro-me, especificamente, as minhas cunhadas, irmãs da minha esposa. Tenho pena dos maridos delas!
Reinaldo, por exemplo, morreu cedo, antes de completar 40 anos, por causa de um infarto fulminante. Era preciso ter muito estômago para aguentar aquela esposa dele. Ainda bem que ela mora longe da gente! Razão pela qual os nossos contatos além de serem restritos, permitem com que as nossas visitas tornem-se cada vez mais esporádicas.
Não muito diferente, é Joana: nunca, em toda a minha a vida, a vi recepcionar ninguém na residência dela; eu que o diga: sempre que chegava lá, era uma tromba e sequer me oferecia um café ou um copo d´ água.
-Você nem imagina o que aconteceu..._ Dizia ela.
Antes que eu perguntasse “O que houve?”, ela destrambelhava a língua para maldizer de quem quer que fosse. 
O marido dela é uma carga torta: não trabalha, bebe e arranja umas paqueras por aí. De vez em quando, ou quase sempre, Joana fica sabendo das aventuras dele e quando isso acontece... É aquela brigalhada. Como a minha esposa não gosta muito dele, isso torna-se mais um aditivo para tomar partido da irmã:
-Não se meta nisso, bem. _ Eu digo isso sempre.
-Mas é a minha irmã. E não é justo ela ficar casada com esse descarado.
Eles terminaram se separando judicialmente, mas reataram o matrimonio, pouco tempo depois. Creio que não demore muito para voltarem a brigar. Foi por causa disso que o filho deles resolveu casar, pretendendo sair daquela casa.
Janice não foge à regra: quando não é com o esposo, está arranjando briga com os vizinhos ou com qualquer um. A primeira nora dela, por exemplo, pediu divórcio, porque não aguentou o rojão: além de aturá-la, tinha que dividir o mesmo teto com ela e o sogro. Esse, então... Sem comentários! Percebe-se que o filho mais velho, e ex-marido dessa moça, teve a quem puxar, tanto no lado materno quanto paterno.
Janice, certa vez, precisou fazer uma cirurgia na coluna e não havia ninguém que ficasse com ela. A minha esposa contratou uma pessoa, mas essa pediu para sair, alguns dias depois.
Jussara é a cunhada que eu gosto mais. Minto, era.  No fundo, ela é uma pessoa maravilhosa, contudo a língua dela é de invejar qualquer casável. O marido dela, coitado... Não dá um passo sem, antes, consultá-la.
As esposas dos meus irmãos também não são diferentes, cada uma é pior do que a outra. Não pense que eu não goste das minhas cunhadas. Muito pelo contrário: elas lá e eu cá.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Conto- Ponto Final

Eric do Vale



“Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água.”
(Chico Buarque: Gota D`Água)

            Ao encontro deles dirigiu-se Eliseu, que foi logo dizendo:
Ainda bem que vocês chegaram!
Eliseu Simões? _ Perguntou um dos homens.
Sou eu mesmo. Podemos ir?
Ele se deixou algemar e ser conduzido até a viatura, antes mesmo de receber voz de prisão. Todo mundo, naquele momento, deveria estar viajando ou cantando “Noite Feliz”, mas os jornais, no dia seguinte, noticiariam: “Homem Executa Família a Tiros, Durante A Ceia De Natal”.
A vizinhança haveria de lembrar-se das inúmeras vezes em que a polícia foi acionada, em função das constantes brigas do casal e, provavelmente, diriam: “Eu sabia que isso terminaria assim.”.
Não era de hoje que Eliseu desconfiava da infidelidade de sua esposa. Ao flagrá-la conversando, as escondidas, no celular, ele foi até o quarto, pegou o seu revólver, carregou-o e retornou para a cozinha. Finalizada a ligação, colocou-se diante dela e não balbuciou nenhuma palavra, deixando-a aflita:
  O que você quer? _ Perguntou ela.
Ele permaneceu parado, sem dizer nada, impedindo a passagem dela, que gritou:
Me deixe em paz!
Você vai ficar em paz. _ Apontando a arma para ela.
Uma bala acertou o coração, antes mesmo que ela tivesse a chance de gritar por “socorro” ou pedir “clemência”. Após dar cabo na vida da sua esposa, Eliseu fez o mesmo como sogro, a sogra e o cunhado.
Um misto de frieza e serenidade transparecia em sua face, à proporção que o seu depoimento era tomado. Ciente de que, horas antes da ceia começar, os dois tiveram uma séria discussão, o delegado quis saber o motivo e Eliseu desabafou:
  É uma pergunta que eu não vou saber te responder, porque brigávamos por tudo, o tempo todo. Não me lembro de nenhuma vez, nesses dez anos, que tenhamos ficado sem brigar, pois isso fazia parte da nossa rotina.
Nunca pensaram em se separar?
Até que tentamos, mas não deu certo.
Por que não deu certo?
Outra pergunta que eu não vou saber te responder.
Possuidora de um temperamento hostil, ela estava sempre em atrito com os vizinhos, agredindo-os física e verbalmente, conforme registrados nos Boletins de Ocorrências. Até o seu marido abriu uma queixa contra ela, por ter esfaqueado o braço dele.
Constantemente, ela o humilhava, chamando-o de imprestável e desprezível sem se importar com a presença de terceiros, ao ponto de cuspir-lhe na face. Os familiares dela, por sua vez, intervinham em seu favor, deixando-o em uma posição vulnerável.
Consumado o assassinato, Eliseu tomou um cálice de vinho tinto, jantou e logo em seguida, discou para a polícia:
Alô, gostaria de fazer uma denúncia.
Pois não.
Houve um crime, aqui na rua... Edifício... Número...
O que aconteceu?
Matei a minha mulher, meu sogro, minha sogra e o meu cunhado. Estou esperando por vocês na portaria, tenham boa noite e um FELIZ NATAL!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Artigo- Sem Saída

Eric do Vale

Convertida em bola de neve, a atual crise política que permeia este país vem adquirindo enormes proporções, resultando em uma onda de pessimismo sobre a população.
A lacuna deixada por Dilma Rousseff, após o afastamento dessa da presidência da República, permitiu com o que seu sucessor, depois de empossado, tomasse medidas ortodoxas e, um tanto quanto, esdruxulas. Deixando, assim, os nossos compatriotas estarrecidos.
Agora, a população vê-se obrigada a irem as ruas para clamarem “Fora Temer”. Entretanto, existe um importante detalhe do qual todos estão se esquecendo: se, por um acaso, o atual presidente da República cair, quem ficará no lugar dele
            Pela ordem, assume o presidente da Câmara dos Deputados e se esse vier a ser afastado, assume o presidente do Senado. Depois desse, caso não haja opção, o presidente do STF é quem poderá vir a ocupar a presidência da República.
            Ademais, faltam dois anos para Temer encerrar a sua gestão e sendo assim, há um outro fator determinante, caso ele venha a ser afastado: vacância. Nessas condições, o Congresso Nacional promoverá uma eleição indireta, num prazo de trinta dias. Um candidato escolhido pelo Congresso Nacional! Alguém já parou para pensar nisso?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Conto- A Entrevista

Eric do Vale


Para Murilo Antunes Alves

Golpe De Sorte

            - O que é que você está me dizendo? _ Indaguei.
            -Isso que você acabou de ouvir.
Aquilo não podia ser verdade!
-Quando foi que isso aconteceu? _ Perguntei.
            -De madrugada.
            Para mim, aquilo era inaceitável!
Telefonei-lhe, de tarde, e me identifiquei, dizendo quem eu era e onde trabalhava; perguntei se havia alguma possibilidade de entrevistá-lo naquele mesmo dia e ele falou:
-Pode ser na próxima semana?
-Por que não, hoje?
Ele relutou, deu mil e uma desculpas até que eu tirei uma carta da manga:
- Podemos tomar um café?
Ele, então, baixou a guarda, mas foi enfático.
-Pode vir aqui, em casa, para tomarmos um cafezinho, não tem nenhum problema. Mas, não vou lhe conceder nenhuma entrevista.
Aceitei aquela condição imposta por ele e mesmo assim, levei, por precaução, o gravador portátil e um técnico da rádio.
A lembrança dele nos recepcionando no apartamento, onde residia, permeou no meu inconsciente, na medida em que eu ia me recompondo do susto. Além de abatido, percebi o quanto aquele homem havia envelhecido.
Logo que nos acomodamos no sofá da sala, a esposa dele chegou dizendo:
-Zé Bento, o fogão não está funcionando.
Sorte a minha ter trazido o técnico da rádio! Como esse tinha habilidade em consertar equipamentos eletrônicos, pedi que acompanhasse a esposa dele até a cozinha e desse uma olhada no fogão. Então, lhe fiz a seguinte proposta:
-Se ele consertar o fogão, o senhor me concede uma entrevista para a rádio, nesse exato momento?
-Isso é chantagem!
-De jeito nenhum, isso é uma troca de favores.
Ele ficou taciturno e eu insisti:
- Uma conversa informal, o que me diz, seu Lobato?
Ele terminou cedendo.
            Eu sabia que aquele entrevista representava mais do que uma missão cumprida, mas só tive certeza disso quarenta e oito horas depois. 

Esperando Lilibeth

Nunca imaginei que Monteiro Lobato tivesse concedido uma entrevista em áudio, por isso resolvi procurá-la na internet. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que eu ouvia a voz dele.
Escutei na integra aquela entrevista e o que mais me chamou a atenção foram estas palavras dele “Ainda agora mesmo, eu recebi uma senhora, mãe da Lilibeth; essa Lilibeth é uma menina encantadora que mora na rua Monte Alegre e que prometeu me visitar. Eu estou ansiosamente a espera da visita da Lilibeth; eu considero uma visitinha da Lilibeth um prêmio.”.
Será que essa menina chegou a visitá-lo? Considerando que ele morreu dois dias depois de conceder essa entrevista, acho muito difícil. Alguém, pelo menos, teve a curiosidade de procurá-la e saber quem era ela? Lilibeth chegou, pelo menos a tomar conhecimento dessa entrevista?






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Artigo- Pano Pra Manga

Eric do Vale



Questionar a existência divina é algo que, na maioria dos casos, tende a ser tão corriqueiro quanto esdruxulo. É de praxe todo aquele que se diz ateu ou agnóstico fazer a clássica pergunta: “Deus existe?”.
Aqueles que seguem alguma religião, fundamentados nas agradas escrituras, responderão que sim e realçarão: “Está escrito n Bíblia que...”. Mesmo assim, os que não creem ou duvidam da existência divina, sem se darem por satisfeitos, persistirão na pergunta: “Deus existe?”. 
Como tal pergunta é de extrema delicadeza, qualquer indivíduo, no auge de sua sensatez, terminaria, nessas condições, de abster-se de responder a esse questionamento. Estou muito longe de alcançar o posto de questionador mor da existência divina ou de qualquer outro assunto. Tão pouco, essa não é a minha pretensão, pois encontro-me muito aquém de tal função.
Enquanto uns se fundamentam nas sagradas escrituras; outros, de uma forma bem iconoclasta, afirmam que a Bíblia, e outros livros espirituais, não passa de calhamaço redigido por homens em que cada um tem a capacidade de interpretá-lo da sua maneira.
No meio de tantas divergências, uma coisa é certa: independente de que o indivíduo siga uma religião, ou não, existirá sempre o livre arbítrio pelo qual todo mundo sabe tem consciência de seus atos.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Conto- Armadilha do Destino

Eric do Vale



Duarte, com três dias de antecedência, avisou a esposa que teria plantão. Não havia como ela duvidar, porque, casados há cinco anos, sabia perfeitamente que depois dela, a segunda paixão do marido era o trabalho.
            Depois de sair da delegacia, no início da noite, Duarte passou pelo bar onde Peixoto, seu colega de expediente, estava:
-Vai uma geladinha? _ Perguntou Peixoto.
Ele bebeu um pouco e depois, foi embora.
-Vai cedo, cara! _ Disse Peixoto.
Duarte não falou nada e Peixoto continuou:
-Nem precisa dizer, porque eu já sei. Depois, quero saber de tudo.
Dias atrás, Peixoto aproximou-se de Duarte e perguntou:
-Tem compromisso para hoje, a noite?
Peixoto notou que o colega o encarou de uma forma meio atravessada e falou:
-Não é nada disso que você está pensando.
-Eu não estou pensando nada.
-Conheci uma garota ... Um espetáculo!
Peixoto forneceu-lhe o contato da garota e disse:
-O nome dela é Dóris, você não vai se arrepender.
Duarte, minutos depois, enviou-lhe uma mensagem e logo, foi correspondido. Ficou acertado de que, dentro de três dias, eles iriam se encontrar.
Na direção do seu carro, Duarte estava certo de que, naquela hora, a esposa dele deveria estar na igreja ou assistindo a novela e pensou: “Mulheres... São todas iguais”.
Imaginou a noite de prazer que teria com Dóris constatando que aquela seria mais uma, dentre muitas outras, aventuras amorosas que teve; depois, tudo voltaria ao normal e ele chegaria em casa, onde a esposa o receberia perguntando:
-Como foi o dia, amor?
-Exaustivo.
Alguns metros de distância, Duarte telefonou para Dóris dizendo:
-Já cheguei.
-Eu estou na calçada.
 Ele avistou uma mulher de mini short jeans, blusa top preta na calçada e pensou: “É ela!”. Aproximou-se, abriu a porta e ascendeu a luz para cumprimentá-la:
-Hortência? _ Perguntou Duarte.
-Germano!
Diante daquela situação, marido e mulher ficaram sem saber o que fazer.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Conto-Mão De Ferro

Eric do Vale



Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: ´Muito obrigado
São palavras que ainda te deixam dizer,
Por ser homem bem disciplinado´
(Gonzaguinha: Comportamento Geral)

 O professor perguntou:
-O que Darwin pregava?
-Que o homem descendia do macaco. _   Eu respondi.       
-Está errado. _ Disse ele secamente. – Charles Darwin nunca disse isso.
Aquele comentário dele apresentava uma certa soberba.
-Darwin afirmava que as espécies eram oriundas de seres primitivos. _ Disse o professor.
A turma permaneceu em silêncio, conforme era do gosto dele e, em seguida, finalizou: 
- Jornalistas distorcem informações.
Encarei aquilo como uma indireta, visto que era do conhecimento dele e de todo mundo da classe o meu desejo de me tornar jornalista.
Minto, aquilo não foi uma indireta coisa nenhuma, pois ele, no ano seguinte, chegou na sala trazendo uma revista especializada em ciência e que segundo as palavras dele: “colocava no chinelo qualquer Veja da vida, pois era escrita por cientistas e não por jornalistas.”.
Estávamos, naquela época, nos primórdios do século XXI. Ele, no entanto, orgulhava-se de ser um remanescente da “tradicional educação” com direito à palmatoria.
Sempre que um aluno chegava no meio da aula, ele, ironicamente, falava em alto e bom som:
- Com licença, professor.
Todo mundo deveria estar inteirado na aula dele e ai de quem não dançasse conforme a música.
Ao vê-lo dentro do ônibus, um de seus alunos alardeou:
- Professor, o senhor anda de ônibus!
No dia seguinte, quando ele colocou os pés na sala, uma voz, vinda lá de trás, falou:
-Siqueira Papicu!
Imediatamente, dirigiu-se para o rapaz com quem havia se encontrado no ônibus e ordenou:
-Para fora.
-Por quê?
-Para fora.
-Mas, eu não disse nada.
-Para fora.
Então, o “verdadeiro culpado” manifestou-se:
-Fui eu quem disse, professor.
-Para fora os dois.
Se ele era “carne de pescoço”, as provas dele ...
Ciente do meu péssimo desempenho escolar, sobretudo na disciplina que ele ministrava, esse professor, sempre que me via, fazia terrorismo:
-Trate de estudar, porque você está jurado a repetir de ano.
Creio que ele nutria um desejo de me reprovar, não sei por quê. Tenho certeza disso, pois lembro-me perfeitamente quando me viu chegando, no primeiro dia de aula, e falou:
- Você conseguiu passar, o Conselho de Classe ajudou.
Eu tinha que aguentá-lo por mais um ano! Era preciso manter a cabeça fria e, na medida do possível, ignorar aquelas “piadinhas” dele, visto que, naquele momento, encontrava-me no terceiro ano do Ensino Médio.
Um dia, ele reparou que eu estava disperso e, em tom de deboche, perguntou:
 -Escrevendo “bilhetinhos”?
-Por que não cuida da sua vida?
Não sei o que deu em mim para dizer aquilo. Tentei remediar, mas ele, é claro, não aceitou. Eu sabia que não tardaria muito para aquele incidente chegar aos ouvidos do coordenador, porque esse professor, há tempos, vinha arrumando uma forma para me degringolar.
Se ele era intragável, o coordenador, então... Uma vez que um aluno lhe “fazia uma visita”, era mandado para a casa sobre agravante de suspensão; caso aquilo se repetisse, era suspenso e advertido de transferência.
Como eu não tinha para onde correr, atirei-me na “toca do leão”.  Depois de relatar tudo o que havia acontecido, o coordenador falou:
-Fique tranquilo, volte para a sala e deixe que eu falo com ele.
Sete dias depois, o professor, durante a aula, comentou sobre a morte de um ex-aluno que foi baleado por um vigia, quando tentava pichar uma loja. Mesmo lamentando a morte do rapaz, disse que o vigia agiu certo.
-Pichação é crime! _ Disse ele.
O professor aproveitou a ocasião para falar mal do movimento dos Sem- Terra classificando-os como vândalos.  Pelo jeito, ele estava mais descompensando do que nunca; mas o que me chamou a atenção, naquele dia, foi o comportamento dele comigo: além de não ter feito nenhuma “piadinha”, tratou-me como se eu não existisse. E, assim, ocorreu durante o resto daqueles meses.
               Cheguei a pensar que aquilo fosse coisa da minha cabeça, mas só fui me certificar de que não estava enganado, quando ele falou sobre a tal revista especializada em ciências e perguntou:
-Alguém aqui pretende fazer vestibular para jornalismo?
Eu fui o único que me manifestei levantando a mão, porém ele não deu importância e falou para a turma
- Os jornalistas distorcem as informações.