quarta-feira, 20 de julho de 2016

Conto- Acontecimentos

Eric do Vale



Tirei um rápido cochilo e acordei com o barulho da televisão, vindo da sala.
-O filho dele, até agora, não está acreditando. _ Disse a minha mãe. 
Dirigi-me até a sala meio sonolento, onde pude ver, pela televisão, o velório daquele político que estava sendo transmitido ao vivo.  Quarenta e oito horas atrás, ele encontrava-se presente no funeral de um ministro e até deu entrevista, lamentando a morte do colega.
Ontem mesmo, lembrei-me disso, assim que soube da internação dele, causada por um enfarte. Tal lembrança adquiriu maior ênfase, quando, horas depois, foi anunciada a morte dele. 
Dois dias antes, eu estava assistindo a um programa da MTV em que o VJ conversava, pelo telefone, com um telespectador:
- Esta semana foi muito pesada, não acha? Na quinta-feira, morreu mais uma vítima da violência, em São Paulo. Na sexta-feira, faleceu a Linda McCartney; no sábado, foi o Nelson Gonçalves e agora, o ex-Ministro das Comunicações.
Aquele comentário dele fazia muito sentido.
No dia seguinte, fui para escola pensando naqueles últimos acontecimentos. O astral, por lá, também não estava muito agradável.
 Da mesma forma que grande parte da população acreditava que aquele jovem político alçaria voos mais altos na promissora carreira, tudo levava a crer que seriamos mais do que melhores amigos,
Perto de terminar a aula, ela me procurou querendo uma informação. Surpreso, comentei:
-Pensei que estivesse magoada comigo.
-Ainda estou.
Como foi duro para mim escutar aquilo!
Diante da televisão, eu me questionava a razão de tudo aquilo ter desandando. Naquele instante, lembrei-me de que as notas semestrais seriam lançadas, no dia seguinte. Outra coisa a mais que também passou ame preocupar.

Retomada, por alguns instantes, a programação exibida naquele canal, assisti a reapresentação de uma telenovela que aproximava-se dos capítulos finais. Contemplei a cena do casal principal que, embalados pelo som de Kenny G, conseguiam ficar juntos, após vários desencontros. Além de me confortar bastante, aquilo me trazia um certo norte.   

terça-feira, 19 de julho de 2016

Conto- Arquivo Morto

Eric do Vale


- Boa noite! _ Falou ela.
-Boa noite. _ Respondi para não ser grosseiro.
-Há quanto tempo! Tudo bem?
-Sim.
-Não quer conversar?
Perdi a conta das vezes em que me fiz de desentendido para não conversar com ela. Lembro-me que, um dia, abri o meu e-mail pessoal, durante o expediente, e dentre muitas mensagens que recebi, estava a dela querendo saber como eu estava.
Continuei agindo assim até me convencer de que não dava para fugir e, portanto, era necessário encarar aquilo de frente.
-Por que acha que não quero conversar? _ Perguntei.
-Depois nos falamos.
-Espere aí.
Por que eu tinha que dizer aquilo?
-Vai para o show do...? _ Perguntou   ela.
Até parece que eu gosto desse tipo de música!
 Procurei manter a calma e respondi:
-Não.
-Mas, eu vou.
Depois, despediu-se.
Senti-me aliviado, mas, de repente, ela retornou:
-De vez em quando, fico recordando das nossas loucuras. 
Detalhadamente, ela foi lembrando cada uma. Pensei em me despedir dela, inventando alguma desculpa.
-Ainda tenho a agenda que você me deu. _ Falou ela.
Fiquei em silêncio e ela prosseguiu:
-O meu número continua o mesmo.
Me fiz de desentendido e ela perguntou:
- Você tem ainda as nossas fotos?
-Não sei.
-Não sabe?
Fiquei sem responder nada e ela finalizou:
-Deixa pra lá.
Depois de dez anos, ela já deveria ter superado aquilo.
-Vou saindo aqui. _ Falou ela.
Não tive mais dúvida: melhor deixar tudo do jeito que está.  

sábado, 16 de julho de 2016

Conto- Rato De Esgoto (Repugnância)

Eric do Vale


Já reparou que sempre que conversamos, terminamos nos desentendendo? Por quê? O tempo todo, tenho me feito essa pergunta e a única resposta que consigo encontrar é esta: incompatibilidade de gênios. Essa seria a justificativa mais plausível, porém reconheço que também possuo um temperamento muito forte. E sendo assim, refaço a minha pergunta: “Por que estamos, sempre, atritando, um com o outro?”. Uma coisa é certa: somos muito diferentes.
Qual é o seu interesse de saber da minha vida? Sei muito bem qual vai ser a sua resposta: “Todo dialogo gera uma pergunta.”.  Estou completamente de acordo com essa sua afirmação; mas, honestamente, considero a maneira como você faz a abordagem um tanto invasiva e inconveniente. Por isso, quero te lembrar que não temos nenhuma intimidade, apesar de termos tido uma certa convivência diária, em um tempo bastante remoto. 
Quando não é você, é aquele desequilibrado do seu irmão que fica querendo saber de coisas da minha vida que, certamente, não devem interessar a vocês, como: onde eu trabalho; se tenho carro; se bebo ou fumo; se moro só ou não.
Sabe de uma coisa? Não me impressiona nem um pouco que vocês portem-se dessa maneira, levando-se em conta de quem são filhos:  um pai alcoólatra e uma mãe mal-amada.


domingo, 10 de julho de 2016

Conto Emaranhados


Eric do Vale 

1

Naquela reunião de domingo, o assunto não podia ser outro: a separação de Antônio Carlos e Nair. A união chegou ao fim, após quinze anos de vida matrimonial. Aquilo, no entanto, não era nenhuma novidade, porque sabiam que o casamento deles vinha capengando, há muito tempo
-Na verdade, a Nair nunca gostou dele. _ Opinou Alberto.
-Alberto! _ Censurou a esposa dele.
-Estou falando alguma mentira? Todo mundo, aqui presente, sabe que a Nair nunca foi apaixonada pelo Antônio Carlos.
-Mas, ele era louco por ela. _ Falou Cecilia. – Fazia todos os gostos dela.
- Não era isso que eu ouvia dizer. A própria Nair, várias vezes, disse que o Antônio Carlos era um mão de vaca, além de um cavalo batizado. E não foi só para mim que ela disse isso. _ Comentou Dolores.
Todos concordaram e Fernanda foi enfática:
-O Antônio Carlos pode ter mil e um defeitos, mas a grande responsável pelo fim do casamento foi a Nair. Não é porque ela é minha irmã que eu vou passar a mão na cabeça dela. A mamãe sabe disso perfeitamente, embora não admita. E como disse a Cecília: ele sempre foi apaixonado por ela e fazia os gostos dela.
-Mas não foi a própria Nair quem quis se separar? _ Perguntou Dolores.
-Exato e eu vi tudo: eles estavam aqui, em casa, quando a Nair começou a se queixar da vida falando que não estava muito feliz com o casamento e que não aguentava mais. O Antônio Carlos, inclusive, estava sentando nessa mesma cadeira onde, agora, encontra-se o Alberto.
-Ela falou tudo isso na frente dele? _   Perguntou Dolores.
-Sim. Foi de fazer pena. Mas, ele, depois que ouviu tudo, levantou-se e disse: “Nair, você quer se separar?”.  Ela ficou calada e ele continuou: “Amanhã, nós vamos ao fórum e resolveremos isso tudo.”. E assim, encerrou a conversa. 
-Pelo que fiquei sabendo, Fernanda, a sua irmã tentou voltar atrás.
-Tentou, mas ele é que, dessa vez, não quis saber mais dela.  Tenho para mim que no momento em que a Nair fez aquele desabafo, a ficha tinha caído para o coitado do Antônio Carlos. 
A única coisa que Fernanda não falou referente a irmã foi sobre a traição que essa vinha pregando sobre Antônio Carlos. Todos ali presentes tinham conhecimento daquilo, pois não era segredo para ninguém.
Cecilia, certificando-se de que Fernanda não estava por perto, falou:
-A Nair é muito burra. Como é que ela deixa um pedaço de mau caminho daquele solto na pista?
2

- Eu estou com medo_ Disse Mariana deitada sobre o divã.
-Medo de quê? _ Perguntou o analista.
-Medo de enfrentar a realidade, de entender....
-Entender o quê?
Ivan chegou em casa e viu a mesa posta. Os dois filhos dele já estavam jantando e ao perguntar pela esposa, Tiago, friamente, lhe respondeu:
-Mamãe está no quarto e falou que não vai jantar.
- Por quê?
-Está indisposta. _ Levantando-se.     
Ivan foi até o quarto e vendo Mariana deitada, perguntou:
- O Tiago me disse que você estava indisposta, está tudo bem?
-Só uma enxaqueca.
Os filhos já estavam praticamente encaminhados para a vida e tudo levava a crer que, futuramente, Ivan e Mariana teriam mais tempo um para o outro.
Questionada pelo analista sobre a razão de tudo aquilo estar acontecendo, Mariana respondeu:    
-Se você me perguntar como foi que as coisas, de repente, ficaram do jeito que estão, não saberei responder. Não posso negar que o Ivan sempre foi um bom marido e um pai maravilhoso. Agora, fazendo um balanço da minha vida de casada, percebo que o meu marido teve um amor distante, mesmo nos nossos momentos mais quentes. Ele sempre foi cerimonioso comigo, com os filhos e com quem quer que fosse. Isso esteve incutido na personalidade dele. Tenho medo de que o Tiago perca a razão e faça alguma besteira. O meu outro filho, graças a Deus, não sabe de nada, mas já percebeu que alguma coisa está acontecendo.  E pelo andar da carruagem, não vai demorar muito para que, brevemente, tome conhecimento disso.
Tiago chegou em casa bastante emburrado e Mariana perguntou:
-Está havendo alguma coisa?
Tiago relutou até que abriu o jogo:
-O papai e aquele Bruno.
Ele se referia ao rapaz que o pai conheceu recentemente.  
-O que é que tem? _ Perguntou Mariana.
- Eu vi os dois no shopping combinando de almoçar e depois, iriam ao cinema.
- E daí?
Por mais que Mariana contra -argumentasse, sabia, intimamente, que o filho tinha razão. Então, ela desabafou com o analista:
-O Ivan sempre foi muito rígido com o trabalho dele e por isso, é justo que tenha todo o direito de arejar um pouco. Além do mais, ele nunca me impediu de fazer nada que eu quisesse. Por exemplo, o Ivan jamais se incomodou que eu saísse com as minhas amigas e fosse ao cinema com elas. Até falei isso para o meu filho que me respondeu o seguinte: “Não é a mesma coisa, mãe!”. Aquilo soou como um balde de água fria na minha cara. Eu não quero ser injusta com o meu marido, mas não posso negar que, de uns tempos pra cá, tenho me sentido incomodada dele ficar pra cima e pra baixo com esse homem. 
 Ivan perguntou se ela estava precisando de alguma coisa.
-Acho que está mais do que na hora de você e eu termos uma conversa. Feche a porta, por favor. _ Falou Mariana. 
3

Durante o trajeto para a casa, Alberto comentou com a esposa:
- Além de simpática, é muito bonita aquela amiga da Nair.
A esposa dele, nessa hora, teve uma crise de risos e Alberto ficou sem entender. Recuperando-se, ela falou:
-Só você mesmo, Alberto, para pensar uma coisa dessa!
-Pensar o quê?
-Que aquela moça que vimos com a Nair, no shopping, é amiga dela. Francamente!
-Não brinca!
-Há muito tempo que eu sabia disso.
-Por que nunca me contou?
-Pensei que você soubesse.
-Está aí uma coisa que eu não sabia e se você não tivesse me contado...Nem sei o que falar!
-Eu sabia disso, desde a época em que ela era casada com o Antônio Carlos.
-Até a torcida do Flamengo sabia que a Nair enfeitava a cabeça dele, mas eu nunca poderia imaginar que fosse dessa maneira. Coitado do Antônio Carlos! Por falar nisso, eu, recentemente, o vi, e pelo jeito, ele está em outra.
-É?
-Lembra-se da Mariana, aquela que foi casada com o Ivan?
-Claro que eu me lembro. Até estudamos juntas, durante o Ensino Médio.
-O Antônio Carlos está namorando com ela. 
-Coisa boa! Ele merece ser feliz e ela também.
-Engraçado, a Mariana e o Ivan eram um casal tão bonito e de repente, terminaram se separando.
-Pra você ver como são as coisas.
-Até agora, eu jamais entendi a razão deles terem se separado.
- Eu também não. Aliás, ninguém nunca entendeu isso direito.
- O mais surpreendente é que depois disso, o Ivan evaporou.
-É verdade.

sábado, 9 de julho de 2016

Conto- Em Panos Quentes


 Eric do Vale 

I

Já passava das vinte horas, quando dois homens bem apresentáveis dirigiram-se até recepção e perguntaram por João Augusto. A recepcionista telefonou para o ramal dele e falou:
-Tem dois homens querendo falar com o senhor.
-Mande-os subir.
Ela fez o que ele pediu, mostrando-lhes onde ficava a sala dele. Lá chegando, sacaram suas armas e anunciaram o assalto. João Augusto abriu o cofre e entregou-lhes todo o dinheiro. Eles colocaram na sacola e saíram como se nada tivesse acontecido.
II

Era quase meio dia, quando Demóstenes a viu chegar.  Cabisbaixa e de óculos escuros, ela caminhou até a sala dela, dando a impressão de que estava voltando de algum funeral. Demóstenes, então, pensou: “Melhor eu me preparar”.
Não encontrando o seu celular, ela o procurou por todo o cômodo até lembrar-se de que Roberto havia sido a última pessoa presente naquela sala.  Mesmo dizendo-se inocente, a situação ficou complicada para o lado dele. 
Na qualidade de gestor de Roberto, Demóstenes poderia ter falado com ela e a convencido a dar-lhe um voto de confiança Porém, preferiu seguir o exemplo de Poncio Pilatos. 
Demóstenes achou melhor não sair para almoçar e assim que o telefone tocou, atendeu e ouviu a voz dela:
            -Venha até aqui, por favor.
...

Paulo não conseguia acreditar que Magno fosse capaz de ter feito o que fez:
- Será que ele é cleptomaníaco? _ Perguntou Paulo.
- Não seja ingênuo, Paulo. As câmeras registraram o momento em que ele entrou na sala do doutor Arnaldo e abriu a carteira dele, tirando todo o dinheiro. O problema do Magno chama-se safadeza.
Dinheiro, tablete, notebook e celular, esses eram alguns dos objetos que vinham desaparecendo dentro daquela empresa.
 Bianca, a priori, pensou que tal atitude fosse de algum novato, mas a tese dela caiu por terra, quando soube que uma certa quantia de dinheiro havia sido retirada da bolsa de uma recém contratada.
            Paulo colocou o celular para carregar, quando Magno aproximou-se dele e os dois começaram a conversar. Como tinha uma reunião marcada, despediu-se de Magno e ao voltar, reparou que o seu celular não estava mais sobre a sua mesa, onde o havia deixado. Era a segunda vez, em menos de um mês, que aquilo acontecia  
...

Demóstenes fechou a porta e sentou-se em uma cadeira.
-Perdemos. _ Disse ela.
Quando Roberto resolveu colocar a firma na justiça, eles sabiam que aquilo resultaria em fortes dores de cabeça.
-Mas, nós vamos recorrer. _ Falou ela.
Demóstenes estava ciente de que, dessa vez, não teria para onde correr.
III

- Esse Demóstenes é muito esperto! Tratou de sair de férias e viajar para não comparecer na audiência.
- Ele tinha duas opções: ficar do lado do Roberto ou defender os interesses da firma. Qualquer escolha que fizesse, o deixaria em maus lençóis. Eu no lugar dele, teria feito o mesmo.
-Se pudesse, o Demóstenes deporia em favor do Roberto; não que ele goste do rapaz; mas sim pelo bel prazer de destroná-la. Não é segredo para ninguém, aqui da firma, que o Demostenes é louco para ocupar o cargo dela.
-E como ele sabe muito dos podres nela, essa seria a chance de derrubá-la.
- Só que tem um porém: ela também sabe de muita coisa que podem comprometê-lo.  
...
-Todo mundo sabe que a Bianca não suporta o Victor e mesmo assim, resolveu promovê-lo.
-Depois que descobriram as safadezas do Magno, ela achou por bem promovê-lo como forma de reparação.
-Mesmo sabendo que não tinha nenhuma evidencia para incriminá-lo, a Bianca queria degolá-lo.
-Mas, quando viu a burrada que ia fazer, achou melhor aparar as arestas, o quanto antes.
- Aqui, nessa empresa, as arestas tem sido aparadas com muita frequência. O Magno é um exemplo disso: em vez de o demitirem por justa causa, deram as contas dele.
-E o que é que você queria que fizessem? Se ele fosse demitido por justa causa, o Ministério do Trabalho iria querer saber os motivos e a polícia seria acionada.

IV

Não se falavam de outra coisa, naquela firma, que não fosse ao assalto, ocorrido no dia anterior. Como eles sabiam que o João Augusto era o responsável pelo departamento financeiro?
Outra pergunta que deixava todo mundo intrigado: como eles sabiam da existência daquele cofre? Somado a tudo isso, eles haviam passado pelos locais onde não foram instaladas nenhuma câmera.
A polícia jamais ficou sabendo desses detalhes; cada colaborador tinha a sua versão definida, mas todos sabiam que aquilo seria mais um “fato extraordinário” que aconteceu naquela empresa.








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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Conto- A Bola Da Vez


                                Eric do Vale

1

Aquela barulheira toda fez com que Zenóbio despertasse; era um entra e sai de guardas que não acabava mais. Pelo que pode constatar, a coisa era séria. Pudera, aquele alvoroço todo em plena duas horas da madrugada.
Um guarda trouxe um rapaz, de vinte e poucos anos, algemado e o colocou na mesma cela onde Zenóbio estava.  Esse, sentou-se em um colchonete e Zenóbio cogitou até em falar com ele, mas falar o quê?
...
Há qualquer momento, a bomba iria estourar e Hernani sabia disso perfeitamente. O quanto antes, ele deveria apresentar-se à delegacia e confessar tudo. Na direção do seu carro, Hernani só pensava em fugir, mas para onde?
A polícia, naquela altura do campeonato, já devia estar no encalço dele. E pensou no que havia dito a Madalena, antes de dar os três disparos: “Se a minha vida, para você, não vale um vintém, a sua muito menos”.
...
O rapaz continuou sem dizer nada e Zenóbio não somente respeitou como também compreendeu aquela perplexidade dele, visto que, na semana passada, havia passado pela mesma situação: rodeado por várias câmeras ao som de um interminável coro de xingamentos.

2

A criação de uma cooperativa de pequenos empresários foi a chance que Zenóbio Landini encontrou de lançar-se na política, sonho perseguido por esse desde os tempos de estudante secundarista.
Eleito três vezes seguidas para vereador, ele, atualmente, encontrava-se no seu segundo mandato consecutivo de deputado estadual, mas de olho em uma vaga na câmara federal. 
A tão meteórica e promissora carreira política dele, entretanto, terminou sendo abreviada, quando foi comprovado que Zenóbio Landini liderava um esquema de corrupção responsável pela abertura de empresas fantasmas. Logo, a prisão preventiva dele foi decretada.
3

Hernani Fonteles tinha a idade de ser pai de Madalena. Ele era um conceituado advogado e lecionava na faculdade, onde ela estudava.  Sendo casado, passou a cortejá-la de forma discreta e, por alguns meses, mantiveram um romance secreto até a esposa dele descobrir tudo. A separação foi conturbada e pouco tempo depois, Hernani e Madalena assumiram a relação afetiva.
Madalena estava perto de se formar, quando conheceu Cleber, um rapaz da idade dela e que também estudava Direito.  Há tempos que ela tinha perdido o encanto por Hernani. Esse, por sua vez, não se conformava e várias vezes a procurou para reatarem.
Com um 38 na cintura, Hernani foi até a casa de Madalena para pedir uma reconciliação, mas ela falou que já estava namorando outro:
-Eu sei disso_ Falou Hernani. – Por que não tentamos reatar?
-Eu bem que gostaria, mas não dá.
-Depois de tudo? Desfiz o meu casamento, quase coloquei a perder a minha reputação...
- Foi você quem quis assim.
-É assim que você pensa? Se a minha vida não vale um vintém, a sua muito menos.
Sacou o seu revólver e deu três disparos.
E em seguida, fugiu. Hernani apresentou-se a polícia, dois dias depois do crime.

4

Sidney era descrito por seus colegas como uma pessoa de temperamento inconstante: as vezes introspectivo, ou chegado a arroubos. Ele já tinha passagem pela polícia, por ter agredido a ex- esposa dele. 
Uma noite, Sidney chegou na boate, sentou-se e pediu uma bebida. Observou a multidão e depois, foi ao banheiro.  Lá, tirou do bolso uma pistola automática, atirou no espelho e saiu.
Foi para o centro da pista e atirou para cima. Em seguida, mirou na multidão e alvejou de forma aleatória até ser imobilizado por duas pessoas não apresentando resistência.

5

Esvaziadas as gavetas, Mariana tinha a certeza de dever cumprido. Aquele meses foram repletos de fortes emoções: inúmeras ocorrências que renderam matérias para todos os órgãos de imprensa.
No meio daquilo tudo, ela recebeu a notícia de que, finalmente, havia sido convocada para tomar posse no cargo de juíza. Esse era o sonho da vida dela pelo qual tinha se preparado bastante.
Mariana, depois de despedir-se dos seus colegas, deu um pulo até o xadrez e lá, cumprimentou cada um, antes de sair, e contemplou a cela onde Zenóbio Landini dividia com Hernani Fonteles e Sidney Noronha.




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Conto- Um Dialogo

  Eric do Vale

“Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí.”

(Passaredo: Chico Buarque de Holanda & Francis Hime)


- Lembra-se de que, uma vez, eu te disse que aqui as paredes tem ouvidos?
-Lembro sim, por quê?
-Porque quero que continue sabendo disso.
-Aconteceu alguma coisa?
-Não sei, aconteceu?
-Perguntei primeiro.
- E por que você acha que aconteceu alguma coisa?
- Pela forma como você me abordou...         
-Então, aconteceu.
-Não aconteceu nada.
-Melhor assim.
-Com licença.
-Espere, eu ainda não terminei.
-Você quer me explicar o que é que está havendo?
-Torno a dizer que aqui as paredes tem ouvidos e olhos também.  
-Eu já sei.
-Sabe mesmo?
-Você já tinha me dito isso, antes.
-E digo de novo.
-Posso saber por quê?
-Porque fiquei sabendo de uma história sua.
-Uma história minha?
-Uma pessoa veio me dizer que você foi procurar o chefe e disse que precisava falar com ele, pois era de extrema importância. Aí, o chefe perguntou do que se tratava e você disse que era em particular.
-Eu não vou nem perguntar quem foi que te falou isso, porque sei que você não vai revelar, mas posso te garantir uma coisa: isso nunca aconteceu. Pode até ter acontecido e eu não esteja recordando, mas que importância tem isso?
-Não sei se tal informação procede, nem quero saber e tenho raiva de quem sabe. Mas, o que me deixou com a pulga atrás da orelha foi que eu tomei conhecimento disso por meio de alguém com quem não tenho nenhuma ligação, sem falar no conselho que essa fonte me deu: “Não acho essa pessoa muito confiável. Muito cuidado! ”.
-Se eu quisesse aprontar com você, já teria feito isso, antes.
-Então, você admite que pretendia puxar o meu tapete?
-Não é bem assim ...
- Só te digo uma coisa: caso queira me derrubar, certifique-se, primeiro, se a pessoa, ou as pessoas, para quem você está fazendo a minha caveira é, ou são, de inteira confiança. E eu não estou falando só de mim, lembra-se daquela figura que foi falar mal do chefe para o pessoal ligado a ele? Nem preciso te dizer como isso terminou, porque você viu com os seus próprios olhos. Aqui, dedo duro não tem vez.
-  Não é, nunca foi e jamais será a minha pretensão puxar o tapete seu ou de quem quer que seja. Acho que não me expressei direito. 
- Por isso, eu te digo para tomar muito cuidado com o que diz.
-Vou seguir esse seu conselho.
-Só mais uma coisa: aqui, todo cuidado é pouco. 




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