domingo, 9 de outubro de 2016

Conto- A Busca

Eric do Vale

          Uma famosa atriz suicidou-se, atirando-se de um prédio. Pelo que me lembro, conforme informou o apresentador do telejornal, ela havia trabalhado em duas produções: As Panteras e Charada Em Veneza. Nunca me esqueci desse acontecimento, porque era a primeira vez, na vida, que escutei o verbo suicidar, assim como o seu significado. 
            Alguns anos depois, lembrei-me desse fato, quando assisti pela televisão, um episódio das Panteras. Qual delas havia dado cabo na própria vida? Não faço a menor ideia.
Tal lembrança permaneceu armazenada na minha memória, por muito tempo, até que, um dia, assobiei, sem mais nem menos, o tema de abertura desse seriado, no meio do expediente. Logo, decidi acessar o Google e assim, desvendar esse mistério.
A vantagem de viver nos dia atuais é que temos a Internet a nossa disposição, a todo o instante, para tirarmos as nossas dúvidas sobre qualquer assunto. Pelo que pude apurar, as atrizes que fizeram parte das Panteras, até o presente momento encontram-se vivas.
Acordei, no meio da noite, e perdi o sono sem nenhuma razão. Naveguei um pouco pela internet até que me veio o nome do filme Charada Em Veneza. Acessei o Google e pesquisei o nome das atrizes que atuaram nesse filme e então, Eureca!
Ela era francesa e iniciou a carreira como modelo até tornar-se atriz. Dentre os filmes que atuou, está A Pantera Cor De Rosa. Na infância, eu sempre me confundia com o filme e o desenho animado homônimo, juntamente com o seriado As Panteras.
Depois de fazer muito sucesso, a careira dela entrou em declínio. Consequentemente, ela passou a sofrer de depressão e após várias tentativas de suicídio, terminou alcançando tal objetivo atirando-se do oitavo andar do apartamento, onde residia 

Conto- Consciência

Eric do Vale


Será que me descobriram? Não sei. Ninguém, até agora, falou nada, por isso estou na minha e quero continuar assim. Desde ontem venho sendo tratado com frieza. Isso nunca tinha acontecido, antes! 
Como fui cair em tentação?  Certamente, devem ter me dedurado. Por que fui fazer aquilo? Não adianta me martirizar; a besteira já foi feita, mas nunca poderia imaginar que eu fosse cair tão rápido. 
Nunca fui disso e não faço ideia do motivo que me levou a fazer o que fiz. Aquilo foi uma fraqueza, é claro.  Justo eu, que sempre prezei pela ética! Como fui cair nessa? Cada vez que me faço essa pergunta, penso: "A casa caiu".
Agora, não sei o que fazer. Talvez, não seja nada disso e, quem sabe, posso até ter me equivocado. Mesmo assim, acho estranho e, até agora, estou com a pulga atrás da orelha. Será que alguém me entregou? Será que me viram?




Conto- A Escolha

 Eric do Vale 

Para Natalina Philomena Assumpta Odísio de Sá & André Pontes Thé


Com onze anos de idade, eu já tinha uma certa noção do que queria da vida: tornar-me engenheiro. Manifestei esse desejo em uma reunião de família e uma tia minha falou:
-Engenheiro? Você não tem a menor vocação para isso.
A franqueza sempre foi um traço peculiar na personalidade dela, sendo essa uma faca de dois gumes: defeito para uns; virtude para outros. Confesso que, naquele momento, eu fiquei completamente sem ação e ela prosseguiu:
- Por que não pensa em estudar Direito? Tenho certeza de que você será um excelente advogado.
Não dei importância ao comentário dela.
A encontrei em casa, meses depois, quando voltei do colégio e mostrei-lhe a nota que eu havia tirado na prova de matemática: 9,0.
Depois de ser parabenizado, falei:
- Serei engenheiro. _ Falei.
-Engenheiro? Por que não cursa Direito? Tenho certeza de que você será um excelente advogado. Sabia que Getúlio Vargas foi advogado? 
-O Juscelino também era advogado? 
-Não, ele era médico
Ela finalizou:
-Faça Direito.
Tal história repetiu-se, muitos anos depois, quando um colega meu de escola, no meio de uma conversa informal, perguntou:
-Nunca pensou em fazer Direito e ser advogado? 
-Por que está me dizendo isso? 
-Porque acho que você tem tino para essa profissão.
Ele tornou a me dizer isso, dois anos depois, quando estávamos na época de fazer vestibular.
Nunca, em toda a minha existência, pensei em cursar Direito e, respectivamente, tornar-me advogado, conforme a minha tia e esse meu amigo haviam me aconselhado. Também, não consigo entender de onde tirei a ideia de querer ser engenheiro, visto que cálculo nunca foi o meu forte.
A única coisa que sei é que após vários impropérios, encontro-me, atualmente, na metade do curso de Direito   visando, futuramente, tornar-me um advogado.

Conto- Ironia Do Destino

Eric do Vale


Não sou criminalista, mas peguei esta causa atendendo a um pedido de um colega meu, porque esse encontrava-se atuando em um outro processo. 
Na proporção em que fui estudando o caso,  lembrei- me dos meus tempos de universitário, durante a aula de Direito Penal.
-Acusar alguém de assédio sexual é algo muito grave. _ Falou o professor daquela disciplina.
A minha cliente tinha uns vinte e poucos anos e alegava ser assediada sexualmente pelo seu chefe. Com frequência, ele enviava mensagens com cantadas típicas de um cafajeste, conforme pude averiguar. 
Ela havia me dito que outras funcionárias também foram assediadas por ele; uma delas até chegou a ser demitida por justa causa, porque ameaçou de denunciá-lo a polícia.
Durante a audiência, lembrei- me das palavras do meu professor de Direito Penal: "Acusar alguém de assédio sexual é muito grave. Podendo, muitas vezes, destruir a reputação do réu ". Pensei muito nisso, quando o vi naquelas circunstâncias. Justo ele, um homem casado e pai de família! E o que mais me impressionava era saber que, em um período distante, fomos colegas de escola. 

A lembrança que eu tinha dele, naquela época, era que ele sempre foi um aproveitador, em todos os sentidos. Se eu fosse uma pessoa sádica, poderia ter me alegrado vendo- o naquela situação constrangedora, visto que quem estava defendendo a vítima dele era justamente alguém que ele sempre subestimou.

Conto- Tempo Real

Eric do Vale


Eu estava com a cabeça repleta de preocupações, quando a avistei do outro lado da calçada. Reconheço que fui o grande responsável pelo nosso distanciamento; depois disso, chegamos a nos encontrar meio que casualmente; mas o nosso contato, como era de se esperar, passou a ser bastante formal.
Ao ser notado por ela, atravessei a calçada e perguntei:
-O que está fazendo?
- Eu vou...                                                                         
-Posso te acompanhar?
-Sim.
Trocamos menos do que três palavras e quando atravessamos o primeiro quarteirão, deixamos de lado odos os nossos afazeres. O cheiro dela permaneceu na minha pele, assim como o gosto do batom que, por um longo período, ficou na minha boca.
Custei a acreditar no que tinha acontecido, instantes atrás. Estou certo de que ela, assim como eu, ficou sem entender coisa alguma. Gostaria de saber o que deve ter passado pela cabeça dela, durante e depois daquele ocorrido.

Conto- Reflexão

Eric do Vale

Por que me tornei policial? Os filmes que eu assistia, certamente, me influenciaram a seguir essa carreira. Ficava me imaginando, um dia, prendendo um bandido e dizendo: "Você tem o direito de permanecer calado e tudo o que disser será usado contra você no tribunal ".  Charles Bronson e Clint Eastwood eram meus heróis de infância. 
Quando assisti Tropa de Elite, resolvi, naquele momento, entrar para a polícia militar e foi o que aconteceu. Eu sabia que a realidade era diferente do que ocorria nas telas e pude constatar isso, durante as diligências. 
A minha admiração por aquele trabalho somava-se ao espírito aventureiro. No entanto, aquilo foi me cansado. Além de bastante puxado, aquele oficio foi ficando bastante perigoso. Perdi a conta de quantos amigos morreram no cumprimento do dever.
Depois de oito anos na PM, prestei concurso na policia Civil e fui aprovado. Nesse mesmo período, cursei a faculdade de Direito com a finalidade de, futuramente, tornar-me delegado. E foi o que aconteceu.
A adrenalina sempre foi algo que fez parte da minha personalidade, mas, hoje, quando cheguei em casa, lembrei-me das palavras do personagem do Sean Connery fala para Kevin Costner, no filme Os Intocáveis: “Você cumpriu a lição número 1 de um policial: voltar vivo”. Penso nessa frase, na proporção que me lembro de que, dentro em breve, serei pai.


sábado, 8 de outubro de 2016

Conto- Em Apuros

Eric do Vale



Ao meu lado, sentava-se um homem que, o tempo todo, dizia achar estranho a rota daquele nosso voo, pois, sendo biólogo, viajava com frequência para aquela região. Eu, no entanto, não prestei muita atenção no que ele falava, porque, naquele momento, estava pensando em uma outra coisa: “Tudo ficará esclarecido. Na condição de advogado, vou me valer dos bons antecedentes apresentados pelo meu cliente.”.
O biólogo tornou a dizer que havia alguma coisa de errado naquele percurso. Continuei ignorando o comentário dele, assim como as demais pessoas presentes, naquele voo. Minutos depois, fomos informados de que o avião encontrava-se fora ao rota prevista.
- Não falei? Eu sabia, eu sabia! _ Pronunciou o biólogo, falando alto.  
A aeromoça tentou acalmá-lo alegando que tudo estava sob controle. Ela utilizou esse mesmo argumento, quando, depois de alguns segundos, ficamos sabendo que o avião tinha sofrido uma pane. O comandante, naquele momento, fez o seguinte comunicado:
-Senhores passageiros, mantenham as poltronas inclinadas, porque vamos fazer um pouso de emergência.
...

 Depois que encontrou, pela internet, o caminhão que desejava adquirir, Ananias fez a aquisição do veículo, contudo o vendedor não informou em qual agência bancária deveria ser feito deposito do dinheiro e sequer entrou em contato com o comprador para que ficasse acordada a entrega do caminhão. Por isso, Ananias resolveu procurá-lo.
 Além do nome, ele sabia que o respectivo vendedor residia em uma fazenda, no interior do Pará. Ananias pediu informações ao gerente do hotel, onde estava hospedado, sobre uma cidadezinha do interior daquele Estado e esse lhe falou:
- É muito longe daqui, doutor.
-Amanhã, precisarei ir até lá e pelo que verifiquei, o local fica bem aqui
. _ Mostrando-lhe o mapa.
-Doutor, o senhor tem certeza de que é nessa cidade?
-Sim.
O gerente saiu, chamou dois funcionários do hotel e depois, falou:  
-Pelo jeito, o senhor não é daqui.
-Não.
-Veio a negócios, certo?
-Isso mesmo.
- Logo vi.
-Querem me explicar, por favor, o que está acontecendo?
-É simples: esse lugar para onde o senhor está querendo ir é totalmente isolado. Acho que não preciso dizer mais nada.
Ananias contrariou os conselhos dos funcionários do hotel, alugou um carro e, no dia seguinte, seguiu viagem. No meio do trajeto, foi parado por uma blitz. Quando viu aquela mala cheia de dinheiro, o policial achou muito estranho e pediu-lhe explicações.
Os argumentos de Ananias não foram muito convincentes, por isso terminou sendo detido.
                                                                ...
Estou vivo? O tempo todo, me fiz essa pergunta; principalmente, depois da queda do avião. Mas, somente agora, dois dias depois de ser resgato, tenho absoluta certeza disso.      
Passado todo o susto, após o pouso forçado, a primeira coisa que todos nós pensamos em fazer, foi ligar para os nossos familiares avisando sobre o que tinha acabado de acontecer e garantir-lhes que estava tudo bem.
Além de nos encontrarmos em um local bastante ermo, a maioria dos aparelhos eletrônicos haviam sido danificado, em virtude do impacto causado pela queda. Dessa forma, tornou-se impossível acessar a internet o dar algum telefonema.
O meu cliente, nessa altura do campeonato, deve estar subindo pelas paredes. Preciso entrar em contato com ele o mais depressa possível! Assim como eu não gostaria de estar na pele dele, tenho certeza de que, quando souber o que aconteceu comigo, o Ananias desejará o mesmo.