terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Conto- A Treplica


Eric do Vale


     
“Nunca diga jamais
Pra não errar
Essa história de amor bem que pode virar
E você vai ficar
Com todos menos comigo”
(Com Todos Menos Comigo: Guido Vitale & Edgard Poças)    


O continuo veio até a minha mesa trazendo um embrulho e disse:
- É para a senhora, dona Lourdes.
Agradeci e quando li o nome do destinatário, fiquei admirada: Amaury       Rangel.
Faz mais de três anos que não o via, embora falasse, esporadicamente, com ele, pelas redes sociais. Não vou mentir que fiquei muito surpresa com aquela encomenda e assim que abri o pacote, vi que era um livro de autoria dele e com dedicatória para mim. Naquela hora, pensei: “Ele conseguiu!”. 
O Amaury sempre manifestou o desejo de ser escritor e até chegou a publicar vários poemas e contos em suplementos literários. Fiquei muito feliz dele ter alcançado esse objetivo. Especialmente, porque não se esqueceu de mim. O livro possuía um título sugestivo: Em Pratos Limpos. Julguei que fosse um romance, e era. Então, decidi lê-lo, assim que chegasse em casa.
Narrado em primeira pessoa, a trama relatava a história de um homem que reencontra um antigo amor. Diga-se de passagem: um amor não correspondido. Volta e meia, o narrador fazia menção aquela música, Com Todos Menos Comigo.
Conforme fui lendo-o, verifiquei que a moça a quem o narrador era apaixonado tinha a ver comigo: após dispensá-lo, ela conheceu um outro cara e ficou gravida desse, tornando-se, respectivamente, mãe solteira. Por isso, procurei o Amaury:
- Recebi o seu livro, muito obrigada! Quer dizer que você me considera uma piranha?
- De onde você tirou isso, Lourdes?
- Ao contrário do que você escreveu, eu namorei o pai da minha filha, por um longo período.  Depois que fiquei grávida, ele terminou comigo. E assim que a criança nasceu, reatamos e vivemos juntos, durante um ano, até que ele resolveu, novamente, viver a vida dele. Depois disso, passei por várias privações, junto com a minha filha.
Admito que fui apaixonada pelo Amaury. Aliás, pensei que fosse. Pelo pouco que convivi com ele, constatei que os nossos gênios eram incompatíveis. O próprio Amaury sabia disso, pois disse-lhe tudo, naquela época. Na realidade, acho que nunca fui apaixonada por ele e pude constatar isso, logo que comecei a me relacionar com o pai da minha filha.
Pensei que, com o passar do tempo, o Amaury tivesse colocado uma pedra sobre esse assunto, pois sei que, atualmente, ele encontra-se muito bem casado.
-Lourdes, “isso é uma história de ficção, qualquer semelhança...” _ Disse Amaury.
Por mais que ele afirmasse ser uma história de ficção, sabíamos, ele e eu, que havia um quê de verdade.
-Seja honesto, Amaury. Pelo menos, consigo próprio. _ Eu disse.
Ele insistia em dizer que não, então falei:
- Por que mandou o livro para mim?
Tal pergunta, até hoje, permeia na minha cabeça.
Sem obter uma resposta, eu falei:
- Melhor seria, se você não tivesse me enviado esse livro.




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Poesia-Desafio

Eric do Vale

Bem aqui, estamos nós
Para que, muito além, possamos
 Ir onde desejamos chegar
E se foi preciso passar
Por muitos obstáculos,
Que venham outros
A fim de nos fortificar. 







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sábado, 28 de novembro de 2015

Conto- Gran Final

Eric do Vale

            Fechadas as cortinas, não vejo a menor necessidade de prosseguir com esta encenação barata, visto que está tudo terminado. Era sabido que, um dia, isso chegaria ao fim e agora, não me resta mais nenhuma dúvida.
Desempenhei o meu papel com maestria até me decidir mudar de função e escrever o desfecho deste ato.   Nunca gostei de despedidas e por isso, não me darei ao trabalho de olhar para trás na ilusão de obter algum aplauso. 

Foi preciso passar por tudo isto para que eu pudesse reconhecer o meu valor e concordar com aquela tese que diz que o ser humano é forte, porque é adaptável a tudo. E o que mais me impressiona é que, durante todo esse tempo, eu permaneci imune a este mal que, desde sempre, contagia a humanidade: a ignorância.  Tenho plena convicção de que não só está impregnada na sua alma, como também sou capaz de, categoricamente, afirmar que você é a personificação dela.  





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Conto- Despedida 2

Eric do Vale

Muitas vezes, achei por bem não te contrariar para não entrar em atrito com você. Eu, melhor do que ninguém, sei que receber críticas nunca foi o seu forte.  Bastasse alguém descordar, para você se exceder e apelar para abaixaria.
            Quero que você saiba de uma coisa: mesmo estando sempre do seu lado, jamais compactuei com isso. Apesar de, há bastante tempo, te conhecer, somente agora, eu vi quem realmente você é.
É claro que eu já tinha ciência de tais atitudes, mas foi preciso enxergar com os meus próprios olhos para concluir que fiz vista grossa demais para tudo isso. Acho muito provável que, depois de ouvir este desabafo, você me inclua na sua lista negra. Quer saber? Para mim isso não tem nenhuma importância.





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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Conto- O Mesmo Filme

Eric do Vale

Atendi o telefone, no meio de expediente, e alguém, do outro lado da linha, falou:
-Alô, Rui?
            -É ele, quem está falando?
-Sou eu...
Antes de me recuperar do susto, aquela voz continuou:
-Quanto tempo, não é?
- É verdade.
-Quando foi mesmo a última vez que nos vimos?
-Não faço ideia. Acho que foi há nove anos, por aí. O que você conta de novo?  
-Eu? Nada. E você?
-Idem.
-A propósito, preciso muito falar com você. Tem algum problema de eu passar no seu escritório, amanhã?
-Problema nenhum.
-Então, está combinado.
Fazia tempo que não nos víamos e bota tempo nisso!  Durante dois anos, fomos colegas de escola e sempre que alguém mexia comigo, vinha sempre em meu socorro para me defender. Foi ali que surgiu a nossa amizade. Só voltamos ater algum contato, depois de muitos anos, por meio de uma rede social.  Nessa época, eu me encontrava na metade do curso de direito. Vez ou outra, mandava-lhe algum recado, mas nunca era correspondido e uma vez que já tinha me conformado com aquilo, fui pego de surpresa:
-Olá, Rui. Quanto tempo!
-O quem tem feito?
-Estudando e trabalhando. E você, Rui?
-A mesma coisa, estou no sexto semestre do curso de Direito. E você.
-Perto de terminar administração.
-Qual é o seu telefone, posso te ligar?
-Sim.
Telefonei, logo em seguida, e a conversa não parou mais.
-Quer dizer que você está precisando de dinheiro? _ Perguntei.
-Sim, é para pagar a minha faculdade. Eu até peço desculpas de estar te fazendo esse pedido, Rui.
-Desculpa de quê?  Só posso te que estamos no mesmo barco, veja o meu caso: tenho que trabalhar de manhã e à noite, tenho que ir para a faculdade.  Sem falar na mensalidade que é quase a metade do meu salário que é uma mixaria.
Passava das dez horas da manhã, quando a minha secretaria disse que tinha uma pessoa querendo falar comigo. Disse que deixasse entrar e ela, assim o fez. Pedi para que se sentasse e ofereci-lhe café e água. Em seguida, perguntei:
-A que devo a honra de sua visita?
-Preciso da sua ajuda.
-Minha ajuda?
-Sim, você é advogado e por sinal, um dos melhores.
Tive a impressão de já ter visto aquele filme antes e por isso, falei:
  -Não conte comigo. _ Falei.
-Por quê?
-Me dê uma razão para que eu te ajude.
-Além de ser um grande advogado, nós estudamos no mesmo colégio. Não se lembra quando o pessoal mexia com você e eu te defendia?  
- Sou um advogado conceituado e possuo uma excelente clientela, por isso não quero botar tudo a perder por sua causa.
-Por minha causa? Não estou entendo pode ser mais claro? 
- Lembra-se de quando me pediu dinheiro emprestado? Você garantiu, em nome da nossa amizade, que me pagaria, assim que pudesse. Ainda hoje, eu me lembro das suas últimas palavras: “Não vou me sujar com você, por causa de um reles dinheiro.”.  Que ironia! Sendo assim, não moverei uma palha para te ajudar.
Antes que dissesse alguma coisa, levantei-me, caminhei até a porta e abri dizendo:

-Passe bem. 





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sábado, 31 de outubro de 2015

Conto- Despedida

  Eric do Vale


Não faço ideia de qual seja o seu ponto de vista referente a minha pessoa, mas eu sei o que  penso sobre você. O nosso contato sempre foi muito restrito e nunca trocamos mais do que duas palavras, por quê? Jamais houve, entre nós dois, uma afinidade e acho pouco provável disso, algum dia, vir a acontecer, porque somos muito diferentes: seja na educação ou no caráter. Principalmente, nesse último quesito.  
Desde já, fique você sabendo, que para mim sempre foi muito penoso dirigir-lhe a palavra, pois, no meu entender, tal ato só é propicio para aqueles que são dignos. Mesmo assim, eu me sujeitava a isso por uma simples razão: educação. Coisa que você não deve saber o que é.
Bastou eu virar as costas para você manifestar o seu descontentamento em relação a minha maneira de ser, pensa que não fiquei sabendo disso? Seria muito mais nobre, se tivesse feito isso na minha presença, mas vergonha na cara não é todo mundo que tem.
            A minha apatia converteu-se em desprezo, na medida que o meu grau de tolerância por você minguou. Assim como as demais pessoas que fazem parte do nosso convívio diário, você faz jus a este mundo em que vivemos.
            Sei que não sou melhor do que ninguém e estou muito longe de alcançar tal proeza, porque possuo inúmeros defeitos. E como nem tudo são espinhos, posso afirmar que você é um exemplo típico de tudo aquilo que não deve ser seguido. 







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Conto -Apenas Um Sonho No Rio


                                                            Eric do Vale


O ano mal havia começado e todo mundo, a sua maneira, procurava um norte. Durante uma conversa informal, alguém falou:
      - Quando James Taylor subiu no palco e começou a cantar uma daquelas baladinhas românticas...O público veio abaixo. Eu vi tudo pela televisão.
    Quem foi o cristão que teve a ideia de trazê-lo? Tudo bem que ele seja uma celebridade, mas não tinha nada a ver com aquela programação. E o que eu estava fazendo lá? Até hoje, essa pergunta me persegue.
        Estava decidido a ir embora, quando um amigo meu perguntou:
             -Já? Por quê?
         Ele me falou sobre um concerto que aconteceria, dentro de alguns dias, e eu acabei me convencendo a ficar.
     Ao chegarmos, soube que o James Taylor tocaria naquela noite. Pensei: “Essa não! Era só o que me faltava!”. No meio daquela multidão, fui me distanciando do meu amigo decidido, de uma vez por todas, a ir embora, quando trombei com uma moça e essa, sem querer, derramou cerveja na minha camisa.
Falei vários palavrões, enquanto ela não sabia o que fazer e permaneceu parada, na minha frente. Aquilo tornou-se um aditivo para eu ir embora, quando, naquele momento, o James Taylor começou a cantar You re Got a Friend. Acho que não preciso dizer mais nada. 





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