sábado, 30 de janeiro de 2016

Conto- Aquela Pessoa

Eric do Vale


O uniforme da Policia Militar realçou todo o receio e repulsa que, em outros tempos, eu sentia por aquela pessoa. Truculência e insociabilidade eram duas características que definiam muito bem a personalidade daquela... Mesmo assim, não havia ninguém que deixasse de especular sobre a sua orientação sexual. Por que não pensei nisso, antes? Tenho certeza de que aquilo seria um trunfo nas minhas mãos, quando aquela pessoa viesse, novamente, me ridicularizar. Sim, eu poderia. Houve uma ocasião em que não me contive e revidei. Discutimos, trocamos insultos até sairmos no tapa. Várias vezes, eu xinguei a mãe daquela pessoa sem que essa tivesse me feito nada. Aliás, sequer eu a conhecia. Lágrimas começaram a escorrer daqueles olhos e aproveitei a sua inercia para cuspi-lhe na face. Os demais, ali presentes, não tiraram os olhos de nós dois. Na medida em que fui me distanciando, pude ouvir alguém murmurar a palavra miserável. Não sabia quem era e nunca tinha visto aquela figura que, ao aproximar-se de mim, perguntou:
-Como você pode ser tão vil?
Aquilo tornou-se um aditivo para aquela pessoa continuar me detestando, enquanto os demais passaram a me ver de uma forma não muito positiva.   

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Conto- 5 De Agosto

Eric do Vale
1996

O primeiro semestre não saiu como eu havia planejado. O ano passado também não foi lá essas coisas, mas eu era feliz e não sabia. O que foi que aconteceu? Agora, eu queria ficar em casa, faltar uns dias e não voltar mais. Eu queria, mas as coisas não são bem assim. Acabei revendo e ouvindo tudo o que eu não queria. Até quando?

2002

Tudo outra vez!  Tudo está como há seis anos. As mesmas pessoas, as mesmas coisas e o clima mais carregado do que nunca. Queria fugir, ir embora. Mas, para onde? O que mais me conforta é saber que, agora, tudo é uma questão de tempo.

2009

Atravessados todos os vendavais, cheguei onde eu queria. Alcancei a glória!

2014

Idas e vindas. Volto ao mesmo lugar. É tempo de recomeçar. Agora, mais do que nunca.

2015

Um ano depois, tudo se repete: hora de reescrever um novo capítulo dessa história.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Conto- Desnorteado

Eric do Vale

            -E ele, como está?
            -Está bem. Casou-se, mas, depois, separou. De vez em quando, ele apronta.   
            -Hum, gosta de dar umas escapulidas!
            -Ele é meio atrapalhado.
            No fundo, ele era uma ótima pessoa e com um coração boníssimo, mas demonstrava que tinha um juízo situado no dedo mindinho do pé. Ao passar o fim de semana em uma região praieira, gastou todo o dinheiro que não tinha sobrando um centavo sequer.
            É do conhecimento de todos que ele, uma vez, foi parado pela blitz, porque estava pilotando uma moto sem capacete e levando consigo um de seus filhos que era menor de idade. Além disso, ele não portava a habilitação.
            Soube-se também que, recentemente, ele, na companhia de seus dois filhos, tinha ido visitar um conhecido, quando esse já estava de saída, e perguntou:
            -Posso ir com você?    
            -E os meninos?
            -Eles ficam aí vendo televisão.
            Depois de muito insistir, ele conseguiu convencê-lo e ao voltarem, encontraram a casa de cabeça para baixo.  Indignado, o conhecido dele falou:
            -Pelo amor de Deus, vá embora! Pegue as suas crianças e saia daqui, agora mesmo!
            Sem eira e nem beira, perambularam pelas ruas até chegarem a uma rádio local.  Lá, ele falou que precisava muito voltar para a cidade dele, porque não dispunha de condições financeiras.




domingo, 24 de janeiro de 2016

Conto- Babados

Eric do Vale

Domingo, só uma coisa que nós, meros mortais, desejamos fazer, nesse dia: dormir. Não fujo a regra e quando, de madrugada, eu me encontrava no décimo oitavo sono despertei com uns gritos que vinha lá de fora. Será possível! Tentei voltar a dormir, mas não consegui. A coisa devia ser muito séria. Levantei-me e fui ver o que era. O burburinho vinha da casa que fica em frente à minha, só podia ser! Dona Edwiges, pra variar, estava dando aqueles escândalos homéricos e a vítima, dessa vez, era o marido dela. Ele não é flor que se cheire e por isso, dou razão a ela, mas acho que roupa suja se lava em casa.
Outro dia, dona Edwiges pegou o cinturão e, bem no portão da casa dela, açoitou a filha dizendo em alto e bom som:  
-Isso é o que dá não educar uma filha direito. Vejam, minha gente! Vejam. _ E batendo cada vez com mais na moça. – Vejam! E que isso sirvam de exemplo para todos vocês que são ou, um dia, se tornarão pais e mães.  Eduquem os seus filhos e filhas direito, se não..._ Deu três cintadas na moça.
A minha família e eu vimos aquela cena de camarote
-Faça alguma coisa? _ Falou a minha mãe para o meu pai.
-Eu? Quer que eu leve uma cintada também?
 -Como você é mole, homem!
-Então, vá você.   
-Deus me livre!
-Vamos entrar que é o melhor que a gente faz.
 Quando não era o marido ou a filha, dona Edwiges estava batendo boca ou se atracando com alguma moradora, aqui da rua.  Já perdi a conta das vezes em que a polícia foi acionada, por causa das confusões dela.  Notando que todos estavam assistindo aquela cena, ela falou:
-O que é que vocês estão olhando? Vão cuidar de suas vidas!
Ninguém falou nada e dona Edwiges entrou para a casa dela. O marido, todo desconcertado, fez a mesma coisa que ela. E quando a multidão estava prestes a se dispersar, um senhor dirigiu-se para porta da casa dela e começou a falar bem alto para todos:
-É o fim dos dias, é o fim dos tempos! O apocalipse se aproxima!
De onde saiu aquele homem? Eu não sei. Ele continuou pregando o evangelho sem se importar com a diminuição do fluxo de pessoas e eu, dentro da minha casa, ouvi aquela pregação até pegar no sono.  Mas, alegria de pobre dura pouco. Em plena sete horas da manhã, despertei com um som ligado no último volume, Meu Deus do céu! E era uma sequência de Reginaldo Rossi, Amado Batista... Ninguém merece!
Coloquei o travesseiro sobre a minha cabeça e percebi que aquele som tinha parado. Estava crente que, finalmente, iria dormir o sono dos justos, porém uns gritos ecoando aqui em casa colocaram tudo por água abaixo.  A minha mãe estava discutindo com a minha irmã, pois essa tinha acabado de chegar, naquele momento. Ah, essa não!    

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Conto- Mal- Entendido

                                                   Eric do Vale

Quase atirei a xícara de café no chão, ao vê-lo debruçado sobre o meu caderno lendo, provavelmente, a última coisa que eu havia escrito.  Pensei em arrancar aquilo das mãos dele ou inventar algo do tipo: “não dê importância, são só bobagens.”. Mas, sabia que nada disso adiantaria. Notando a minha presença, Carlinhos levantou-se e olhou-me de tal maneira, que fiquei sem ação.
-Você escreveu isto? _ Perguntou Carlinhos.  
Nunca simpatizei com ela. Vez ou outra, abordava-me querendo saber algo referente a minha vida particular e eu, de uma forma bem cortes, dava-lhe uma cortada, deixando bem claro que não queria conversa. Além de evasiva, era também folgada e fofoqueira. Por isso, nenhum morador do prédio gostava dela.  Eu preferia mil vezes subir vários lances de escada a ter que tomar o mesmo elevador que ela. Apertei o botão do meu andar, quando a vi chegando e de repente, o elevador parou. Era só o que me faltava! Graças a Deus que aquela pane durou pouco tempo!
Assim que coloquei os pés no meu apartamento, peguei um caderno de capa dura verde no qual costumo fazer anotações sobre alguns fatos que considero marcantes e decidi colocar no papel tudo aquilo eu pensava a respeito dela.
Como se estivesse falando para ela, escrevi, em forma de carta, que muito me incomodava aquele péssimo habito dela de querer se intrometer na vida alheia e enfatizei: “Durante esses anos de convivência, jamais ouvi da sua boca uma palavra elogiosa. Muito me espanta saber que, para você, ninguém presta. Já se olhou no espelho?”. E continuei escrevendo até finalizá-lo.
No dia seguinte, fui ler com calma o que havia escrito, quando o porteiro interfonou avisando que o Carlinhos estava subindo. Deixei o caderno aberto sobre a mesa, no momento em que a campainha tocou. Abri a porta, pedi para que entrasse e falei:
-Fique à vontade, você já é de casa. A propósito, estou passando um café, você aceita?
-Sim.
Não tive a menor dúvida de que, naquele instante, encontrava-me em um beco sem saída. Carlinhos continuou me olhando daquele jeito e repetiu a pergunta:
-Você escreveu isto?                               
- Sim. _ Respondi meio que desconcertado.
-Zé Luís, por que você nunca me falou desse seu talento?
-Talento?
-Escondendo o jogo, homem?  
Fiquei sem entender e pedi que me explicasse.
- Zé Luís, você escreve muito bem, sabia?
-Não.
-Eu te aconselho a não desperdiçar esse seu talento. Pode ter certeza de que irá muito longe.
Continuei sem entender, mas pensei muito no que ele havia me dito. O Carlinhos estava coberto de razão e me certifiquei disso, depois que reli tudo o que estava escrito naquele caderno. Reescrevi cada um desses textos, convertendo-os em conto, crônica e poesia. Passei a postá-los em um blog que eu tinha criado e, ao mesmo tempo, a compartilhá-los nas redes sociais.
Alguém que conheço, um dia, telefonou-me perguntando:
-Está tudo bem?
-Sim, por quê?
-Não está zangado comigo?
-Por que haveria de estar?
- Pelo que você postou, deduzi que estivesse zangado comigo. .
Reparei que estava se referindo ao último texto que eu havia postado: justamente aquele que escrevi para aquela senhora.
-Aquilo que você leu é uma narrativa ficcional, um conto, narrado em primeira pessoa_ Expliquei. .
No final, tudo ficou esclarecido. Outras duas pessoas, também conhecidas minhas, me procuraram a fim de saber o que estava acontecendo comigo, pois ficaram preocupadas com a minha última postagem, na rede social.
 Jamais passou pela minha cabeça que aquela minha produção textual pudesse ser tão impactante e tive certeza disso, quando um conhecido me enviou esta mensagem: “Quer dizer que você me acha que eu não tenho educação e que sou mau caráter? Quero ver se tem coragem de dizer isso na minha presença. Sei onde mora e, atualmente, onde você está trabalhando. Esteja certo de que irei procurá-lo para dizer tudo o que penso sobre você. Vou imprimir esta porcaria que você escreveu para esfregar na sua cara e depois, fazê-lo engolir.”
Pelo pouco que o conhecia, sabia que aquilo não seria difícil de acontecer. Percebendo que eu estava on line, ele perguntou:
-E aí, qual vai ser?
 Falei que estava havendo um mal-entendido e, naquelas condições, expliquei-lhe a origem daquele conto.
-Sendo assim, me desculpe.  Quer um conselho? Cuidado com o que escreve, guarde esses seus textos para você.
Até hoje, não sei como aquele meu texto chegou ao conhecimento do Fred, visto que eu não tenho nenhum contato dele. E por que ele se doeu tanto? Mesmo que tudo tenha sido esclarecido, confesso que fiquei bastante tenebroso.  
Alguns meses depois, tive a ideia de transcrever sobre esse episódio, quando, no meio do expediente, a telefonista telefonou-me avisando:
-Seu Zé Luís, tem um homem aqui que deseja muito falar com o senhor.
-Como é o nome dele?
-Fred.
-Como é que é?
-Fred.
Desliguei o telefone e antes que pudesse pensar em fazer alguma coisa, a porta da minha sala foi aberta.
-O cara da manutenção está aqui. _ Falou o rapaz que trabalha comigo, ao entrar no meu gabinete.
-Manutenção? _ Recuperando-me do susto.
-Sim. Ele está aqui para concertar o ar condicionado.
-Ah, sim. Mande-o entrar, por favor.
Assim que o técnico entrou, levantei-me e falei para esse:
-Fique à vontade. Tenho que dar uma saidinha, mas volto logo.
Fui até a recepção e olhei por todo o cômodo, mas não encontrei ninguém.  Perguntei a recepcionista:
-Onde está o sujeito... Digo, o homem que queria falar comigo?
-Dirigiu-se para a sala do senhor.
-Como assim?
-Aquele rapaz que trabalha com o senhor pediu que eu o liberasse...
-E pelo jeito, você acatou o pedido dele.
-Sim. Eles entraram, agora há pouco.
-Eles?
-O homem e o rapaz que trabalha com o senhor, seu Zé Luís. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Poesia- Dia De Chuva

Eric do Vale

Um dia chuvoso
É um dia preguiçoso
Em que a preguiça,
Um pecado capital,
Redime-se em um
Descanso mortal. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Conto -Sem Resposta


                                                            Eric do Vale      


Após ter falado para o meu amigo que existiam perguntas que já nasciam sem respostas, correu-me a ideia de elaborar uma lista com essas interrogações. Cada vez que eu me lembrava de algum fato marcante, escrevia uma pergunta e, para a minha surpresa, conseguia obter alguma resposta, coisa que, até então, me parecia impossível de conseguir. Mas, para toda regra sempre existiu, e existirá, uma exceção. Estava com treze anos, quando fui estudar naquele colégio, e ela foi a primeira pessoa com quem eu tive contato. Diariamente, vinha ao meu encontro com toda aquela simpatia e solicitude para me perguntar se eu estava gostando do colégio e algo desse tipo. A minha resposta era sempre sim.  Houve uma vez que, durante o intervalo, conversamos bastante e em pouco tempo, um ficou sabendo da vida do outro. Depois desse dia, eu não sei dizer o que realmente aconteceu para termos nos distanciando.
Só sei de uma coisa: eu tentei me reaproximar, mas ela passou a mostrar-se cada vez mais arredia. O que eu falasse ou fizesse era motivo suficiente para me hostilizar.  Várias vezes, cogitei em procura-la com a finalidade de perguntar o que estava acontecendo e saber se tinha feito alguma coisa que a deixou magoada, mas o meu receio falava mais alto.  Houve ocasiões em que pensei em partir para a ignorância, porque não dava para suportar tanta implicância e a troco de quê?
Eu, uma vez, juntamente com uma parcela da classe fui para a coordenação, porque não estávamos vestidos de acordo com o uniforme do colégio. Por pouco, ficamos impedidos de assistirmos as aulas. Ela também estava no meio e falou para a turma que não sabia desse novo regulamento:
-Eu também não estava sabendo disso. _ Eu falei.
-Não estou falando com você. _ Ela respondeu com tamanha agressividade.
    Aquela resposta levou-me a descartar qualquer possibilidade de reaproximação e o mesmo sentimento de repugnância que ela tinha por mim, eu, naquele momento, passei a nutrir em relação a pessoa dela.  
No ano seguinte, mudamos de sala e não tive mais notícias dela até que, onze anos depois, nos reencontramos por meio de uma rede social. Não sei qual de nós tomou a iniciativa de enviar uma solicitação de amizade. Acredito que tenha sido eu, embora não tenha tanta certeza disso. Dias depois, ele me disse oi e eu, obviamente, correspondi. Logo, estávamos conversando bastante. Esse seria o primeiro de muitos outros diálogos pelos quais, respectivamente, trocaríamos e, quem sabe, tudo seria esclarecido.  Assim, eu pensava.