segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Conto- Lembranças Do Passado

Eric do Vale

- Sabia que eu até pensei em ser freira?
-Não brinca!
-É Sério. Queria ser freira, porque não pretendia me casar nunca. E depois que comentei isso com a Anabela, não tive mais sossego. Vira e mexe, ela fica pegando no meu pé e até, veja você, me chama de madre superiora.
-Só rindo mesmo e quer saber? Eu estou me controlando para não achar graça.
-Nem vem que não tem. Você não pode dizer nada: e aquela coroa que você era os quatro pneus arreados?
- Você também não pode dizer nada: lembra-se daquele quarentão que te deu uns beijos, depois que ele te deu carona?
-Foi só uma vez e isso foi um grande equívoco na minha vida.  Ao contrário de você, que era os quatro pneus arreados por essa dona. Vai negar?
-De jeito nenhum. Mas, isso é passado.
-Passado? Nunca que vou me esquecer do dia em que ela te deu um fora: você veio chorar nesse meu ombro.
-Você tem que lembrar disso, por quê?
-Foi você quem começou. Agora, aguenta o tranco.
-Ah, é? Só que eu nunca pensei em ser padre.
-Mas, sempre foi um eterno romântico. Além dessa coroa, teve aquela tresloucada...
-Tá legal, você venceu. Por falar nisso, você me deu uma grande ideia.
-Qual?
-Escrever uma história sobre isso.
- Você não é nem louco de fazer uma coisa dessa!
-Por que não?
-Falar da nossa vida, ficou louco?
-Prometo que não vou citar nomes.
-Você escolhe:  escrever essa história ou o nosso namoro?


Conto- O Justiceiro

    Eric do Vale

Feita a aquisição do automóvel, Irineu conferiu a documentação e depois, falou para o vendedor:
-Consta aqui, na documentação, que o ano do carro é 1984.
-E daí?
-É que o senhor me vendeu essa Belina dizendo que ela era do ano de 1986.
-Azar o seu.  Se achou ruim, procure os seus direitos.
Irineu, naquele momento, pensou em partir para a ignorância, dizendo-lhe alguns desaforos. Contudo, manteve acalma e achou melhor seguir o conselho dele.    
            Deitado na rede, Raulino saboreava o seu uísque vespertino, quando notou a presença de Irineu.
            -Irineu, o que é que há? Sente aí e me diga: o que o trais aqui? Aceita um uísque? _ Perguntou Raulino.
            -Eu queria um favor seu, se fosse possível.
            -Qual é o problema?
            -Eu comprei uma Belina 1986 e quando tive acesso à documentação, verifiquei que o ano do carro era de 1984.
            Irineu mal terminou de relatar o ocorrido e Raulino levantou-se dizendo:
            -Pode ficar sossegado, porque nós vamos resolver isso, agora.
            Aquele homem de bigode, óculos escuros e com um revólver na cintura chamou a atenção de todos que estavam naquela concessionária.  
-Irineu, me mostre quem foi o sujeito que tentou te ludibriar. _Disse Raulino.
- Foi ele. _ Apontando para o homem de cabelos grisalhos.
            Raulino aproximou-se dele e perguntou:
            -Podemos conversar?
            -Sim, claro...
Ele fez um gesto para que os dois o acompanhassem até a sala dele. Ao sentar-se, o homem de cabelos grisalhos falou:
-Fiquem à vontade. _ Fazendo um gesto para os dois sentarem. – Vocês aceitam uma água ou café?
-Nem uma coisa e nem outra. Nós seremos breves, doutor. _ Disse Raulino tirando os óculos, aproximando-se dele – O senhor vendeu para o meu cliente uma Belina 1986, quando, na verdade, o ano dela era 1984. O senhor sabia que essa sua brincadeira vai lhe custar muito caro? 
Ele ficou inerte e Raulino prosseguiu:
O senhor violou praticamente todo o Código Civil, sem falar no artigo 171, do Código Penal.  Não sei se o senhor sabe, mas isso chama-se estelionato. Quer que eu te diga quantos anos o senhor terá de cadeia, se levamos essa fato ao conhecimento da justiça?
-Não, por favor. Me diga_ Olhando para Irineu e abrindo a gaveta da mesa. -  Quanto o senhor quer?
- Eu só quero o valor certo do carro.
Depois de ter pago a Irineu, Raulino falou:
-O senhor demostrou ser um homem muito sensato. Quem dera se todos fossem assim.
Ninguém da concessionaria tirou os olhos deles dois até se certificarem de que tinham do embora.
Irineu tirou um bolo de dinheiro do bolso da calça e após separar as notas, falou:
-Aqui está a sua parte, Raulino. E mais uma vez, muito obrigado.
-Não foi nada, Irineu. Mas, fique com todo o dinheiro.
-Não é justo. Tenho que te pagar.
-Então, me dê só o dinheiro do meu uísque.  


                                                                  

Conto- Memórias De Um Médico (Parte 2)

Eric do Vale


Para Salomão Francisco Rabelo Sampaio


Todos os médicos estavam no pátio central do Hospital Militar, quando o coronel Feitosa, diretor do estabelecimento, ficou no meio de nós e foi direto ao assunto:
            -Fui informado de que, ontem, houve, aqui dentro do Hospital Militar, uma briga entre dois médicos que resultou em luta corporal. Portanto, peço aos responsáveis por essa balburdia para, nesse exato momento, darem um passo à frente.  
            Eram quase dez horas da noite, quando papai chegou e vendo todos nós ali presentes, perguntou para mamãe:
            -Tudo em ordem, por aqui?
            -Sim, meu velho.
            Era comum, sempre que chegava em casa, papai fazer essa pergunta a ela. Caso fizéssemos alguma coisa errada, ela o informava e ele, imediatamente, aplicava o corretivo em nós.
O coronel insistiu, mas ninguém se pronunciou e então, perguntou:
            - Quer dizer que não houve briga?
            Todos ficaram em silêncio. Assim como os demais presentes, ali na recepção, eu não balbuciei uma palavra sequer e como os responsáveis, até então, não haviam se pronunciado, era muito provável que todos nós seriamos punidos.   
Depois que mamãe disse-lhe que estava tudo em ordem, o velho andou alguns metros, olhou para todos nós e perguntou:
- Olhem para cá e me respondam. _ Apontando para a testa – Aqui, por acaso, está escrito trocha ou outra palavra semelhante? Vamos, me respondam!
O silêncio foi a nossa resposta e ele continuou:
-Vocês pensam que eu tenho cara de palhaço? A quem pretendem enrolar? Eu quero que me digam a verdade, senão vou descobrir. E se eu descobrir...
Não sei como papai desconfiou que havia algo errado. Aliás, ele sempre foi muito esperto e, até hoje, estou para conhecer alguém que tenha conseguido levá-lo no bico. Naquele dia, os meus irmãos mais velhos, Carlos e Pedro, saíram no braço, porque um tinha vestido a camisa do outro.  A sala estava um pandemônio:  mamãe e as minhas irmãs aos prantos, enquanto os meus outros irmãos tentando separá-los. Discretamente, aproximei-me do interruptor e apaguei a luz.  
Naquela noite, eu havia sido escalado para o plantão e quando cheguei, vi dois colegas discutindo até saírem-na pancadaria. Todo mundo correu para separá-los e nessa mesma hora, chegou um paciente, portador de demência mental, que começou a agredir todo mundo e a arrebentar tudo o que via pela frente.  Então, tudo ficou escuro. Só ouvi aquela quebradeira toda e uma voz que, até hoje, não consegui identificar perguntando:
-Quem apagou a luz?
Para piorar, o gerador estava quebrado!  Apoiei-me no braço de um casal e nos escondemos debaixo de uma maca até a luz voltar. Quando me levantei, percebi que um senhor estava deitado na maca, onde eu havia me escondido, e como ele que não se mexia, toquei, duas vezes, o braço dele, que abriu os olhos.
-Está tudo bem? _ Perguntei.
-Sim. Eu só me fingi de morto, por causa desse doido.
Não vou mentir que fiquei com vontade de abrir o jogo, mesmo sabendo que dedurar um colega não era uma coisa correta. Tenho certeza de que não apenas eu, mas também os demais, fariam a mesma coisa, pois o coronel Feitosa era o sadismo em forma de gente. Entretanto, para a nossa surpresa, os dois deram um passo à frente e confessaram tudo.  Sumariamente, foram punidos: passaram duas semanas sem sair do hospital e fazendo todo o serviço de limpeza.
Papai era macaco velho e sabendo que ninguém lhe contaria o que tinha acontecido utilizou o método de sempre: escolher aleatoriamente um de nós para interrogar. Ana Lúcia foi a escolhida e o velho, com o cinto na mão, perguntou:
-Me diga: aconteceu alguma coisa?
Ela olhou para todos nós e em seguida, observou papai segurando o cinturão e   percebendo que não havia escapatória, encheu os olhos de lágrima e contou, detalhadamente, a briga de Carlos e Pedro.
 Depois de aplicar o corretivo nos dois, papai disse:
-Todos vocês estão de castigo, durante uma semana. Inclusive você. _ Referindo-se a mim.

Justo eu que não fiz nada!   

Conto- Memórias De Um Médico (Parte 1)

Eric do Vale

  
Para Salomão Francisco Rabelo Sampaio

Lá estava eu dissecando um cadáver e encarando aquilo com a maior naturalidade, enquanto alguns colegas começaram a passar mal. Houve até quem desmaiou. A aula de anatomia foi um momento decisivo na minha e não tive dúvida: nasci para aquilo. 
Um ano antes, estava com dezoito anos completados, próximo de concluir o terceiro ano e decidido a prestar vestibular para arquitetura.  Naquela época, não havia internet, por isso a inscrição tinha que ser feita na universidade.  Encontrei-me com o Luiz Fernando, meu colega de escola, que me perguntou:
-Qual curso pretende se inscrever?
-Arquitetura.
-Arquitetura? Por que não tenta medicina?
Honestamente, jamais pensei em ser médico.
 Durante o segundo ano de faculdade, trabalhei, por um período de dois anos, em um cursinho ensinando biologia e por falar nisso, encontrei, dia desses, uma mulher que estudou lá e me disse o seguinte:
-Você se garantia fazendo aqueles desenhos. Lembro-me perfeitamente daquelas células!
O que eu mais gostava de fazer era desenhar, portanto só havia um caminho a seguir: arquitetura.
O Luiz Fernando não parou de me encher o saco:
-Por que você vai querer estudar arquitetura? Faça medicina, homem.
Quando cheguei ao balcão, me inscrevi para o curso de medicina. Assim que souberam dessa minha escolha, a minha família ficou sem entender.
- Meu filho, você está bem? _ Perguntou o meu pai.
-Sim, estou.
-Então, o que foi que aconteceu para você mudar de ideia e se inscrever em outro curso?

Essa pergunta, até hoje, não quer calar. O fato é que eu estudei, passei e, graças a Deus, consegui me formar. E o mais importante: não me arrependo de ter escolhido essa profissão.    

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Artigo- A Bola de Neve (Na Rolançado Tempo)

Eric do Vale

A probabilidade de apanhar torna-se maior, a partir do momento em que se coloca a mão à palmatoria.  Foi assim que aconteceu com a Dilma Rousseff, depois de conceder a Polícia Federal plenos poderes para investigar o poder público.
Desde que a Operação Lava Jato foi desencadeada, somos, diariamente, informados sobre os diversos esquemas de corrupção que permeiam no cenário político nacional e em razão disso, ficamos cada vez mais indignados com os rumos que tudo isso vem tomando.
            Compadeço-me daqueles que são, declaradamente, oponentes do Partido dos Trabalhadores e enchem a boca para culparem o governo atual, postando nas redes sociais mensagens de achincalhamento, por todas as mazelas que vem ocorrendo e dessa forma, vejo-me na incumbência de afirmar que essas pessoas demonstram uma tamanha falta de conhecimento histórico do nosso pais.
Essa afirmação vem a calhar nesse exato momento, quando todos nós tomamos conhecimento de que, nesses últimos dias, foi apurado um esquema de corrupção envolvendo membros do PSDB.
            O que vem acontecendo, nos últimos tempos, não é de responsabilidade exclusiva de uma única gestão, mas sim de várias. Isso que, atualmente, estamos presenciando pode ser comparado a uma bola de neve que depois de adquirir enormes proporções, termina fugindo do controle.           

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Conto- Em Um Tempo Remoto

Eric do Vale 



Durante aula, ouvi alguém dizendo em alto e bom som:
-Lauro Corona morreu.
Era um colega meu, mas ninguém deu atenção ao que ele disse. Pudera, quem ali, naquele jardim de infância, importava-se com aquilo? Acho que somente eu. Em casa, dentro do quarto, escutei o meu pai dizendo para a minha mãe:
-Coronel morreu.
Ele repetiu, mas só foi na terceira vez que eu entendi:
-Lauro Corona morreu.
Corri até a sala, onde os meus pais estavam, e acompanhei, pela televisão, o sepultamento dele. Saímos, em seguida, mas não lembro para onde fomos e perto da hora do almoço, voltamos para a casa. Assisti o noticiário na companhia dos meus pais, antes de ir para a escola. A morte do Lauro Corona foi o principal assunto dos telejornais, daquele dia. 
Naquela ocasião, foi também noticiado o lançamento de um filme publicitário sobre a Aids e que contava com a participação de várias figuras do meio midiático como, Xuxa, Renato Aragão, Chico Anysio, Lima Duarte e dentre outros. Esse comercial passou a ser executado em todas as emissoras televisivas do país, dias depois. Lembro-me que o anuncio começava com o Zico dizendo: “Está na hora de virar o jogo contra a Aids” e encerrava com a frase do Ayrton Senna: “Juntos ganharemos essa parada”. Adorava essa última parte, acho que por causa da enorme admiração que tinha pelo Senna. Todo domingo, eu acordava cedo para assistir as corridas dele.
Passados alguns dias, perguntei a esse meu colega:
- Como você soube que o Lauro Corona morreu?
-A mãe dele me falou.
É claro que não acreditei e prossegui:
-Você foi ao enterro dele?
-Sim.
-Eu também. A Glória Pires e o Alexandre Frota também estavam lá.
- Alexandre Garcia.
-Eu falei Alexandre Frota.
-Mas, o Alexandre Garcia também foi.
Ao ouvir aquilo, entrei no embalo:
-O Ayrton Senna também foi.
-Eu sei, até o Alexandre Garcia perguntou para ele: “Senna, você não quer ir fazer xixi?”.
Rimos um bocado. Agora, lembrando de tudo isso, começo a dar risada.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Conto- Em Vinte Minutos

Eric do Vale

Ao chegar no ponto de ônibus, Dário deparou-se com ela sentada no banco e ficou bastante surpreso. Minutos atrás, tinham se visto na sala de espera, ele puxou assunto, mas não foi correspondido.
Entretida com a televisão, ela comentou alguma coisa sobre o programa que estava assistindo. No máximo, os dois só trocaram umas duas ou três palavras até a recepcionista chamá-lo para a consulta.
Minutos depois, aquilo havia mudado: ela não parava de sorrir e quis saber qual ônibus ele tomaria. 
-Vou para o terminal. _ Falou Dário.
-Eu também.
O ônibus chegou naquela mesma hora e tiveram muita sorte de encontrarem um assunto vazio. Cada um falou um pouco de si. Ele: engenheiro, solteiro e era contador de uma indústria. Ela: divorciada, e professora primaria de uma escola pública.  O que gostavam de fazer nos tempos livres? Ele: praia, cinema e bar. Ela: idem. Onde moravam?
-Divido um apartamento com um amigo. _ Disse Ele.
-Depois que me separei, voltei a morar com os meus pais.
-Qual o seu nome?
-Ruth. E o seu?
-Dário.
Conversaram mais um pouco até chegarem ao terminal.
Ele perguntou se poderia acompanhá-la até a plataforma do ônibus dela e ela respondeu que sim.
-A gente vai se ver de novo? _ Perguntou ela.
-Acho que sim.
-Acha?
-Quer que eu te ligue?
-Sim
Ela disse o número do telefone dela e ele anotou. Quando o ônibus chegou, Ruth indagou:
-Você vai me ligar mesmo?
-Vou sim.
Ela entrou no ônibus e não demorou muito para Dário lhe telefonar.