quinta-feira, 7 de julho de 2016

Conto- Um Dialogo

  Eric do Vale

“Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí.”

(Passaredo: Chico Buarque de Holanda & Francis Hime)


- Lembra-se de que, uma vez, eu te disse que aqui as paredes tem ouvidos?
-Lembro sim, por quê?
-Porque quero que continue sabendo disso.
-Aconteceu alguma coisa?
-Não sei, aconteceu?
-Perguntei primeiro.
- E por que você acha que aconteceu alguma coisa?
- Pela forma como você me abordou...         
-Então, aconteceu.
-Não aconteceu nada.
-Melhor assim.
-Com licença.
-Espere, eu ainda não terminei.
-Você quer me explicar o que é que está havendo?
-Torno a dizer que aqui as paredes tem ouvidos e olhos também.  
-Eu já sei.
-Sabe mesmo?
-Você já tinha me dito isso, antes.
-E digo de novo.
-Posso saber por quê?
-Porque fiquei sabendo de uma história sua.
-Uma história minha?
-Uma pessoa veio me dizer que você foi procurar o chefe e disse que precisava falar com ele, pois era de extrema importância. Aí, o chefe perguntou do que se tratava e você disse que era em particular.
-Eu não vou nem perguntar quem foi que te falou isso, porque sei que você não vai revelar, mas posso te garantir uma coisa: isso nunca aconteceu. Pode até ter acontecido e eu não esteja recordando, mas que importância tem isso?
-Não sei se tal informação procede, nem quero saber e tenho raiva de quem sabe. Mas, o que me deixou com a pulga atrás da orelha foi que eu tomei conhecimento disso por meio de alguém com quem não tenho nenhuma ligação, sem falar no conselho que essa fonte me deu: “Não acho essa pessoa muito confiável. Muito cuidado! ”.
-Se eu quisesse aprontar com você, já teria feito isso, antes.
-Então, você admite que pretendia puxar o meu tapete?
-Não é bem assim ...
- Só te digo uma coisa: caso queira me derrubar, certifique-se, primeiro, se a pessoa, ou as pessoas, para quem você está fazendo a minha caveira é, ou são, de inteira confiança. E eu não estou falando só de mim, lembra-se daquela figura que foi falar mal do chefe para o pessoal ligado a ele? Nem preciso te dizer como isso terminou, porque você viu com os seus próprios olhos. Aqui, dedo duro não tem vez.
-  Não é, nunca foi e jamais será a minha pretensão puxar o tapete seu ou de quem quer que seja. Acho que não me expressei direito. 
- Por isso, eu te digo para tomar muito cuidado com o que diz.
-Vou seguir esse seu conselho.
-Só mais uma coisa: aqui, todo cuidado é pouco. 




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domingo, 26 de junho de 2016

Crônica- Odisseia De Um Escritor

Eric do Vale



Escrever é muito bom, embora seja algo trabalhoso. Essa foi a afirmação que utilizei em uma crônica, escrita há tempos atrás, para classificar o oficio da escrita e agora, faço questão de reafirmar reforçando o seguinte: escrever é dificultoso, mas organizar um livro é duas, três e até quatro vezes mais complicado do que se possa imaginar.
 Falo isso por experiência própria: quando comecei a organizar os meus textos em um único arquivo, verifiquei que possuía dois livros prontos, um de contos e outro de poesias. O próximo passo, foi enviá-los a uma editora e assim o fiz.
Para minha surpresa, duas editoras manifestaram interesse em publicar dois livros deste aspirante a literato e, até então, desconhecido de todos. Enquanto lutava pelo meu espaço no mercado editorial, queriam eles, a todo custo, realizar a minha vontade. Era a fome associada a vontade de devorar o prato. Mas, no final das contas, nenhuma parte chegou a um acordo.
Paralelamente, comecei a escrever de forma corriqueira e já possuía material de sobra para publicar mais de um livro. Novamente, enviei todo o conteúdo para as editoras e a história repetiu-se: nenhuma das partes chegou a um consenso. Pudera, o mercado editorial no Brasil é algo penoso, sobretudo para alguém desprovido de algum apadrinhamento, como eu.
Acredito que foi melhor assim, dispus-me de tempo suficiente para trabalhar na produção textual até que eu pudesse certificar-me de que tudo estava definitivamente pronto.
Volta e meia, alterava o conteúdo dos meus livros: incluía um texto aqui; excluía outro ali e, quando necessário, recolocava-o em seu devido lugar. Quantas vezes fiz isso? Não sei. Mas lembro-me perfeitamente da última vez que isso aconteceu: era uma sexta-feira e, de repente, lá estava eu, de frente para o computador, repetindo o mesmo ritual.
Agradeci e, até hoje, agradeço a Deus por não ter assinado contrato com nenhuma editora. Por um segundo, visualizem Tim Maia e o João Gilberto, incorporados em uma só pessoa, somando com as manias de Roberto Carlos. Esse era eu. Este trabalho, no entanto, trouxe-me um resultado positivo: nove livros prontos, seis de contos e três de poesias. Cabe-me, agora, enviar esse material para uma editora.
Obviamente, não enviarei todo o conteúdo de uma vez só. Por isso, selecionei meus três primeiros livros, dois de contos e um de poesias. E me pergunto: como irão os editores atuar, quando analisarem todo esse material? Fico aqui imaginando as posturas deles, quando, no devido tempo, lhes contar que tenho outros tantos livros prontos paras serem editados. E se eu relatasse a eles a minha odisseia?


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Conto- Miragem II

Eric do Vale


Bem que ela poderia se chamar Stella, pois eu me basearia na letra daquela canção para questionar-lhe: “Em que estrela você se escondeu? Em que sonho você vai voltar?”. Não há um dia, na minha vida, que eu deixe de pensar nela. Volta e meia, vejo as fotos dela e me pergunto: “Será que tornaremos a nos ver?”.
Por falar nisso, perguntei, outro dia, para uma colega do meu trabalho sobre o Charles e essa comentou:
-Provavelmente, morreu e nós nem tenhamos sido convidados aos enterro e a missa de sétimo dia dele.  
É claro que essa minha colega disse aquilo em tom de brincadeira, mas fazia sentido:  ultimamente, ele vinha faltando o trabalho com bastante frequência até pedir demissão. Sabíamos, por alto, que Charles estava passando por um processo de separação.  Várias vezes, telefonei-lhe e até enviei mensagens pelas redes sociais, mas ele nunca me retornou.
Ela também está seguindo o mesmo caminho do Charles: falo “oi”, sempre que a vejo on line, porém não sou correspondido. Tenho plena convicção de que morta ela não está, por isso continuo tentando. Só não sei até quando. 

domingo, 19 de junho de 2016

Crônica- A Caminho Do Final Feliz (O Otimismo Está Em Alta)

Eric do Vale


No fundo, somos todos otimistas e incluo também aqueles que se auto denominam ultra pessimistas. Apesar de termos consciência da aspereza que avida apresenta, todos possuem um quê de romantismo.
Cheguei a essa conclusão, digamos que, por experiências pessoais e por isso, eu, muitas vezes, me questiono se sou um realista romântico ou um romântico realista? Querem saber? Não sou um caso isolado. 
Sempre que nos encontramos em alguma situação vulnerável, o que fazemos? Pensamos: “Vai passar”. Então, alimentamos a esperança de que, um dia, lembraremos disso as gargalhadas, porque sabemos perfeitamente de que tudo a vida é passageiro. E além disso, não há mal que perdure por muito tempo.
Tenho certeza de que muitos pesam assim e ai daquele que diga o contrário, pois é o pior dos mentirosos. Bem no fundo de nossa alma, estamos sempre pensando em um final feliz, típico aqueles que estamos acostumados a assistir na televisão, com as telenovelas ou os filmes.
Depois de assistirmos ao último capítulo de uma novela ou o desfecho de um determinado filme com direito a final feliz, voltamos a nossa realidade. Porém, temos a plena convicção de que superaremos os nossos empecilhos.
Os dilemas que, diariamente, vivenciamos difere, e muito, dos filmes e das telenovelas, é obvio. Estamos diante da realidade, onde as lágrimas são verdadeiras. Assim como o nosso semblante de alegria que fazemos questão de demonstrar, quando superamos as nossas dificuldades.    

Conto- Miragem

(Para Ler Ouvindo Até Parece Que Foi Sonho)

Eric do Vale

 O tempo todo, acompanhei o refrão desta música: “Até parece que foi sonho meu”. Dizia essa frase sem parar, a medida que eu ia cantado. A primeira vez que eu a conheci, estava escutando justamente essa canção e muito me impressionou um trecho que dizia o seguinte: “Tenho medo de acordar e despertar”. 
De repente, apressamos o passo até ficarmos juntos, de vez. Quando me dei conta de que tinha conseguido atingir a minha meta, pensei: “Eu só posso estar sonhando!”. Agora, estou eu aqui escutando essa mesma canção sem entender direito o que realmente aconteceu.
Comparo-me a alguém que, durante um trajeto, levou uma queda do bonde, da charrete ou algo parecido e fica desnorteado. Assim, estou me sentindo, quando penso nela.
Há uma frase, na primeira estrofe da canção, que muito me impressiona: “Por que você foi embora?”. Como eu gostaria de fazer essa pergunta a ela!  Não entendo, juro que não consigo compreender como foi que tudo isso aconteceu! Se eu pudesse vê-la, novamente... Por que você foi embora?  
Digo para mim mesmo: “Até parece que foi sonho” e repito essa frase, duas ou três vezes, até cantarolá-la. E depois, termino me questionando se, realmente, tudo não passou de um sonho.



Poesia- Presença

Eric do Vale


Faço das palavras do Rei
E do seu amigo de fé
As minhas:
“Se chorei ou se sorri,
O importante é que
Emoções eu vivi”.

E vivo todas estas
Emoções e agora,
Mais do que nunca,
Continuo vivendo
Tendo você na
Minha companhia.   

sábado, 18 de junho de 2016

Conto- Um Cadáver A Serviço Dos Abutres

                                            Para Mário de Andrade

Eric do Vale

Não faço ideia de quem começou a falar dele, naquele momento. Então, alguém, que também não me lembro, disse:
-Cá pra nós, ele... _ Fazendo um gesto como se quisesse dizer que esse nosso amigo fosse homossexual. 
Aquilo rendeu muito pano para a manga e não me refiro somente aquele dia. Sempre que falávamos nele, terminávamos falando sobre a orientação sexual dele. Eu, particularmente, nunca desconfiei de nada, mas, depois, percebi que aquela insinuação fazia sentido: nunca casou e jamais foi visto acompanhado de uma mulher!
Minto, lembro-me que, algumas vezes, ele chegou a ser visto na companhia de belas mulheres. E expus esse fato ao pessoal, durante essa nossa conversa.
-Isso não quer dizer nada. _ Disse um dos presentes.
Então, foi aceita atese de que ele fosse bissexual.    
Esse assunto veio à tona de tal maneira, que eu, intimamente, me perguntava: “Pra que isso?”. Por que especular uma coisa dessa de alguém que está morto, há mais de duas décadas?