domingo, 31 de julho de 2016

Conto- Outra História (Tudo Novo De Novo)

Eric do Vale


O mesmo nome e a mesma data de aniversário; seria pura coincidência, se não fosse um detalhe: a diferença de idade. Quando me lembro dos momentos em que passamos juntos, faço das minhas as palavras do Belchior: Na parede da memória, esta lembrança é o quadro que dói mais”.  Esse mesmo poeta, entretanto, afirma que o novo sempre vem, por isso não pretendo cometer o mesmo erro de outrora.
Deus, melhor do que ninguém, testemunhou os percalços que atravessei para conquistá-la. Ela mesma me submeteu a inúmeras provações que homem nenhum, na minha situação, suportaria.
 Já havia me dado por satisfeito, depois dela ter, várias vezes, me dispensado, quando, de repetente, enxerguei uma esperança naqueles lábios. Quantos anos esperei por isso? Alcançado o meu objetivo, eu deveria me segurar e adequar-me aquela situação, mas as coisas terminaram desandando. Por quê?
Sempre que me faço essa pergunta, me dou conta de que eu estava há poucos metros da linha de chegada! É uma pena ninguém ter inventando, até agora, a máquina do tempo.

Visto que, atualmente, encontro-me vivenciando uma situação similar, não desistirei tão facilmente; ela bem sabe disso.  Quando penso que tenho que enfrentar os mesmos percalços, lembro-me, novamente, das sábias palavras do Belchior: “Viver é melhor que sonhar.”.

sábado, 30 de julho de 2016

Conto- Afasta De Mim Esse Cálice

Eric do Vale


“Foi um sonho medonho,
Desses que, às vezes,
A gente sonha e baba na fronha
E se urina toda e já não tem paz.”
(Chico Buarque: Não Sonho Mais)

Aquelas últimas palavras, durante muito tempo, perseguiram o meu subconsciente: “Um dia, terei o desprazer de ficar cara a cara com você.”.  Seria possível isso vir a acontecer? Prefiro pensar que não. Cada vez mais, tenho plena convicção de que fiz a coisa certa; não podia mais tapar os olhos, os ouvidos e fingir que nada estava acontecendo.  Eu tinha que falar tudo o que sabia, pois, as coisas já tinham saído do controle, há muito tempo.   
Só Deus sabe o quanto esperei por aquele dia e quando chegou, titubeei: “E agora?”. Não havia como voltar atrás; era preciso seguir em frente e aguentaras as consequências. E foi o que fiz
Não tive dúvidas de que venci aquele confronto, mas sabia que ninguém deixaria barato. Por isso, me preparei para o contra-ataque.  Dois dias depois, recebi um telefonema, tarde da noite: “Aqui quem está falando é....”.  A reação não poderia ser outra, conforme eu já pressupunha: frases desconexas e palavrões.
 Era a minha vez de ficar inerte e escutar todo aquele absurdo.  Antes de bater o telefone, finalizou: “Um dia, terei o desprazer de ficar cara acara cm você.”.   Aquela oferta que recebi de ir trabalhar no Rio de Janeiro veio a calhar, naquele momento. Não que eu tenha me deixado intimidar com aquela ameaça, mas considerando que aquilo foi dito por alguém habituado a cometer inúmeros atos ilícitos, era preciso ter muito cuidado.
Muitos anos se passaram, e lá estava eu junto com aquele pessoal. E agora? O tempo todo, lembrei-me daquelas palavras: “Um dia, terei o desprazer de ficar cara a cara com você.”.  Quando acordei, olhei para o lado e respirei fundo: “Ufa!”.



domingo, 24 de julho de 2016

Crônica- Para Todos Os Gostos

Eric do Vale


Eu tinha sete anos de idade, quando assisti, no telejornal, a matéria sobre o dia de finados que falava sobre a visita aos "moradores ilustres" do cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Dentre os quais: Paulo Sérgio e Noel Rosa.  
-Quem foi Paulo Sérgio? _ Perguntei para o meu pai.
-Foi um cantor.
-Do que foi que ele morreu?
-De velho.
A conversa cessou ali. A dúvida, no entanto, me perseguiu, por um bom tempo. Vez ou outra, alguém mencionava o nome dele e eu me lembrava dessa história.
Em meados de 1998, assisti, no Vídeo Show, uma matéria, no quadro Túnel do Tempo, falando da morte dele, ocorrida no dia 29 de julho de 1980. O que mais me surpreendeu foi saber que o Paulo Sérgio tinha 36 anos de idade, quando morreu.
No ano seguinte, esse mesmo programa fez uma homenagem a esse cantor lembrando os dezenove anos da morte dele. Naquela ocasião, o Miguel Falabella, então apresentador do Vídeo Show, comentou, antes do VT ir ao ar, que a produção do programa havia recebido inúmeros pedidos para que fosse feita uma homenagem ao Paulo Sérgio e até mostrou o abaixo assinado feito por mil e catorze pessoas.
Então, fiquei sabendo, um pouco, quem era aquele cantor e do que foi que ele morreu: derrame cerebral. O que mais me surpreendeu e, até hoje, me surpreende é que todo o dia de finados, as pessoas, religiosamente, visitam o túmulo dele para prestar-lhe as devidas homenagens.  
A priori, um imitador do Roberto Carlos; Paulo Sérgio, posteriormente, tornou-se um dos precursores do brega romântico, gênero musical que, por meio de uma linguagem coloquial, tinha como público alvo as camadas mais populares.
Muitas vezes, denominado, pejorativamente, de cafona esse estilo de música originou-se no mesmo contexto em que surgiu a nata da MPB: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e dentre outros cujo foco concentrava-se em um público mais intelectualizado. Razão pela qual a nossa sociedade sempre tratou com desdém Paulo Sérgio e seus contemporâneos:  Waldick Soriano, Nelson Ned, Odair José e Agnaldo Timóteo.
O tempo, mais uma vez, mostrou-se sábio, quando Caetano Veloso regravou Você Não Me Ensinou A Te Esquecer, sucesso de Fernando Mendes, na década de 1970.  Comprovando, assim, que a música brasileira, como em qualquer parte do mundo, atingi todas as classes.


Conto- A Vida Real

Eric do Vale


Encontrava-me na biblioteca do colégio, durante o intervalo, folheando uma revista e me surpreendi com a seguinte informação: “John Wayne:1907- 1979””. Aquilo permitiu com que eu regredisse cinco anos.
Entretido com o programa de televisão, o apresentador perguntou: “Qual é a verdadeira identidade do Homem Aranha?” e, em seguida, deu as alternativas: “Maguila; John Wayne; Peter Parker?”.
 Eu, obviamente, sabia que era Peter Parker, mas não contive a minha curiosidade de saber quem era John Wayne. Por isso, perguntei a minha mãe.
-É um ator que só faz filme de cowboy. _ Respondeu ela.
Não demorou para vê-lo em cena, visto que, naquela época, era comum os filmes dele serem exibidos na Sessão da Tarde. Sem esquecer que o meu pai sempre gostou de filmes de Bang bang.  Com um chapéu de vaqueiro e um tapa-olho, essa foi, para mim, a primeira imagem que eu tinha dele, em minha memória.
Um tempo depois, vi essa foto dele em uma revista e perguntei para o meu pai:
-Ele já morreu?
-Sim.
Não acreditei no que tinha acabado de ouvir. Meses depois, fiz essa mesma pergunta e ele, novamente, disse que sim.  Foram necessários cinco anos para que eu tivesse a absoluta certeza de que era tudo verdade.           

Conto- A Vida Real (Parte 2)

Eric do Vale


Com seis anos de idade, eu estava naquela fase de querer saber de tudo
-Quem é George Bush? _ Perguntei para a minha mãe.
-É o presidente dos Estados Unidos.
-Onde mora?
-Nos Estados Unidos.
Naquela ocasião, fui descobrindo, aos poucos, o que era a morte. A minha mãe, sempre que se referia a alguém que já morreu, dizia:
-Mora com Papai do Céu.
Uma vez, lembro-me que perguntei a ela:
-Onde mora o Michael Jackson?
-Nos Estados Unidos.
-Elton John?
-Na Inglaterra.
-Elvis Presley?
-Com Papai do Céu.
-John Lennon?
-Com Papai do Céu.
Nessa mesma época, passava na televisão os filmes do Gordo E O Magro e eu assistia diariamente. O que eu sabia deles, até então, era que O Gordo chamava-se Oliver Hard e O Magro era o Stan Laurel.
Um dia, fui a uma festa de aniversário de um vizinho meu e vi os bonequinhos do Gordo e o Magro decorando o cômodo daquela casa. quando ouvi alguém falando:
-Olha, O Godo e O Magro!
Por uns instantes participei daquela alegria até colocar os pés no chão e me situar na realidade: dias antes, tive a impressão de ouvir o meu pai dizendo que o Oliver Hard havia morrido. Custei a acreditar, por isso perguntei a ele:
-Onde moram O Gordo e O Magro?   
-Eles já faleceram.
Depois de ter ouvido aquilo, fui dormir com um aperto no peito. Apesar de ter ficado sabendo, muito tempo depois, que eles morreram antes mesmo de eu nascer, aquela noticia me provocou tamanha resignação.



sexta-feira, 22 de julho de 2016

Conto- Subconsciente

Eric do Vale



Era bastante comum, no final da sessão, o meu analista perguntar-me se, durante a semana, eu tivesse algum sonho que gostaria de compartilhá-lo. A minha resposta, naqueles três anos de analise, sempre foi não. Depois que recebi alta, ficou combinado de que eu poderia procurá-lo, caso achasse pertinente. Somente agora, tive essa vontade. Mas, desisti da ideia, porque, no meu entender, eu já tinha a resposta para aquilo.  
Hoje, não tirei da minha cabeça aquela música, Girl, You'll Be A Woman Soon. E até sei o porquê: ontem, assisti, pela televisão, Pulp Fiction: Tempo de Violência. Ela pode não ser mais uma garota, mas, para mim, sempre será, por isso eu canto: “Girl, You'll Be A Woman Soon”; “Please, come take my hand”.
 Aquela única vez que nos encontramos valeu por toda a vida! Não há um dia que eu deixe de contemplar a beleza dela, pelo Faceboock, e me pergunto: “Haverá alguma chance de, um dia, nos encontrarmos novamente? Se depender de mim, sim. E ela bem sabe disso.
Hoje, se ela chegasse para mim e dissesse: “Eu quero você”, eu, sinceramente, diria que sim.  Contudo, tenho que cair na real: atualmente, encontro-me casado e, por sinal, com uma mulher maravilhosa. Talvez, seja esse o motivo dela me evitar, sempre que teclo ou tento telefonar-lhe. Nunca entendi direito o motivo dela não querer mais falar comigo. Por isso, não a procurei mais.
Depois que o filme terminou, fui dormir. O que foi aquilo? Acordei, tomei banho e fui para o trabalho pensando no que tinha sonhado: estava em uma casa de veraneio, quando a vi chegando. Então, fomos passear pela praia.  Acessei o Faceboock, vi, mais uma vez, as fotos dela e cantei: Girl, You'll Be A Woman Soon”; “Please, come take my hand”.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Conto- O Aparelho De Som (Mea-Culpa)

Eric do Vale


Tenho uma vaga lembrança daquele aparelho de som que ficava na sala da nossa casa: era de última geração. A minha mãe sempre falava desse rádio com uma certa tristeza, porque o filho da senhora que trabalhava na nossa residência o danificou.  
Eu devia ter, mais ou menos, uns quatro ou cinco anos de idade e, um dia, estava brincando com os meus brinquedos, na sala, quando inventei de mexer no toca fitas. De repente, a portinha do aparelho soltou-se.
Inconscientemente, eu sabia que os meus pais ficaram bravos comigo, quando vissem o que fiz. De fato, foi o que aconteceu. Todavia, o filho da empregada terminou carregando aquele fardo.
Diariamente, ela o trazia para a nossa casa. Lembro-me que ele não era de falar muito e quando isso, raramente, acontecia, expressava-se muito mal.
-A última pessoa que trabalhou aqui, em casa, tinha um filho que não falava quase nada, porém era muito levado. Esse menino mexia em tudo e até quebrou um rádio que tínhamos acabado de comprar_ Disse o meu pai, certa vez, para um conhecido dele.
A minha mãe não deixou barato:
- Depois que esse menino estragou o nosso aparelho, a mãe dele não continuou trabalhando mais aqui, em casa.
Muitos anos depois, quando voltávamos das compras, a minha mãe me perguntou:
-Lembra-se daquele som que tínhamos e aquele menino estragou?
Não me contive:
-Fui eu quem quebrei?
-Você?
-Não se lembra? Eu estava brincando com os meus brinquedos e aí...
-Está se referindo a portinha do toca fitas?
-Sim.
- Aquilo foi o de menos, comparado com o que aconteceu, depois.
Naquele momento, tomei conhecimento de um fato que, até então, eu desconhecia.