quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Conto- O Mala

Eric do Vale

Eu não tinha a menor obrigação de ajudá-lo e mesmo assim, o fiz. Por quê? A única justificativa plausível que encontrei foi esta: tenho um coração mole. Quando vi que ele tinha colado tudo da internet sem se dar ao trabalho de mudar a fonte e ler o conteúdo, pensei “Se ele entregar desse jeito... Não quero nem pensar nisso!”.
            -Você não vai precisar trabalhar muito, só umas coisinhas bobas que eu colei da internet. _ Disse ele.
            Lembrei-me dessas palavras, no instante em que me deparei com o trabalho dele: Pensei: “Algumas coisinhas?  Ele está brincando com fogo!”.  
Custo, a acreditar que esse indivíduo não tenha pesquisado na apostila que eu havia lhe emprestado, no início desse semestre, em que destaquei todos os tópicos importantes Bastava apenas um mínimo de boa vontade!
Uma vez, apresentamos um seminário juntos e ele sequer disse uma palavra.
-Como o seu colega falou muito, queria ouvir a sua opinião. _ Falou o professor para ele, após a apresentação.
A medida em que ia enrolando, o professor lhe bombardeava de perguntas. Pensei que, naquele momento, tudo fosse por água abaixo. Após a aula, eu disse para ele:
-Tome jeito, homem!
Ao digitar esse trabalho, encaminhei para o e-mail dele e pensei: “Eu vou para o céu!”. Em seguida, telefonei-lhe:
-Terminei. Aconselho a dar uma lida, antes de entrega-lo.
-Não vai ser necessário.
-Por quê? 
-É só entregar e pronto. Desde já, muito obrigado.
-De nada.
-Você não sabe como nós lhes somos gratos.
-Nós? 
-O trabalho era em grupo, composto por cinco pessoas.
Filho de uma égua!


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Conto- Cadê Ela? (Garganta Profunda)

Eric do Vale


Ela está uma gata! Ao encontrá-la, pela rede social, fiquei bastante animado, pois não a via desde que terminamos o terceiro ano. Vendo-a agora, lembro-me daquelas cortesias que ganhei para o cinema e me pergunto: “Por que não deu certo?”.
Conforme pude verificar, tínhamos um amigo em comum. Por isso, o procurei e perguntei se ele a conhecia.
-Mas é claro que a conheço, por quê? _ Disse ele.
-Por nada.
Dias depois, ele me perguntou:
-Você era a fim dela?
-Não.
-Então, por que quis saber se eu a conhecia?
-É que fomos colegas de escola.
Sempre que me via, perguntava:
-E aí?
-E aí, o quê?
-Ora essa!
Toda vez que ele falava dela, fazia alusão ao apelido que ela tinha, Garganta Profunda.
Um dia, quando perguntou dela, me fiz de desentendido e dei um sorriso amarelo. Robertão, um conhecido nosso, vinha passando e foi abordado por ele:
-Pergunta para o nosso amigo, aqui, sobre a Garganta Profunda.
Robertão não entendeu nada e ele explicou-lhe tudo detalhadamente.
-Cadê ela? _ Perguntou Robertão.
Levei aquilo na esportiva, mas, dias depois, Robertão, assim que me viu, perguntou:
-Cadê ela?
Era só o que me faltava! 

sábado, 12 de novembro de 2016

Conto- Recalque

Eric do Vale


- Precisamos conversar. _ Disse Minerva.
            Fiquei cismado com aquele tom de voz dela
- Que história é essa de você enviar mensagens para a Nalva? _ Perguntou Minerva.  
Utilizei o mesmo argumento de outrora:
-Foi engano.
-Engano? 
Finalizei dizendo que havia pensado que aquela mensagem tinha sido enviada para a Narcisa.  Quando me dei conta de que tinha enviado a mensagem para a pessoa errada, escrevi: “Por favor, desconsidere esta mensagem, foi um engano.”.
Dias depois, encontrei Nalva conversando com Minerva e falei:
-Aquela mensagem não era para você, por isso me desculpe.
-Sem problemas. Eu até estranhei.
-Era para a Narcisa.
- O que foi que houve? _ Perguntou Minerva.
Nalva relatou-lhe o que tinha acontecido e então, pude notar, naquele momento, que Minerva me olhava de uma forma não muito agradável.
Seria pura desonestidade de minha parte dizer que não achei a Nalva bonita, quando a vi pela primeira vez. Ao se despedirem, perguntei, discretamente, a Minerva quem era ela:
-Nalva, ela trabalha no setor... _Respondeu Minerva. -Ela é casada e tem dois filhos. _ Percebendo que eu fiquei bastante balançado.
? 
-É.
Agora, lembrando disso, observo que Minerva não gostou da forma como eu olhei para ela.
-Eu também sou casado. _ Falei.
-Sei disso.
A conversa terminou ali.
            Qual o problema de achá-la bonita? Apesar de eu ser casado, e ela também, nada me impede de sentir-me maravilhado com a beleza dela.
Por que fui me desculpar com a Nalva na presença da Minerva?  Lembro-me de que assim que pedi desculpas, vi as duas conversando por um longo período. Provavelmente, devem ter falado de mim. Estou certo disso, porque, no dia seguinte, Minerva, ao me ver chegar, veio me pedir explicações sobre tal ocorrido.
Noto que, de uns tempos para cá, Minerva vem me tratando com uma certa frieza. Custo a entender o motivo dela passar a agir assim comigo. Por que Minerva se importaria tanto com isso? 

domingo, 30 de outubro de 2016

Conto- Sementes E Frutos

Eric do Vale

“Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade”
(Preludio: Raul Seixas)


Aquelas palavras nunca saíram do pensamento “Você tem que visualizar as suas conquistas. E não apenas isso, deve também deve sentir-se como se já tivesse conquistado.”. Por isso, imaginou que aquele modesto quarto de estudo como um prospero consultório médico ou um respectivo escritório de advocacia.
Sempre que ia para a faculdade, imaginava-se trajando uma roupa branca, ou um terno e gravata, segurando uma pasta de couro, ou uma valise, em direção a uma consulta ou audiência.
Dentro do seu escritório, ou consultório, lembra-se daqueles tempos de estudante; o consultório, ou escritório, no quarto de estudos de outrora. Nas consultas, ou audiências, que, hoje, fazem parte de sua rotina recorda-se, com frequência, daqueles dias em que ia para a faculdade na busca de suas realizações.
E aquelas palavras... O que mais lhe confortava era saber não havia mais precisão de visualizar as suas conquistas e, muito menos, senti-las como se já tivesse alcançado tais objetivos, porque tudo, agora, estava sendo vivenciado.

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Conto- Maus Bocados

Eric do Vale

Ninguém perguntou nada, quando a viram chegando de mala e cuia, mas todos, daquela cidade, sabiam que alguma coisa tinha acontecido. Uma mulher como ela poderia ter o homem que quisesse, mas preferiu entregar-se justamente aquele sujeito. Meses depois, eles haviam se casado até evaporarem.
Descobriu-se, pouco tempo depois, que aquele homem, assim como os familiares dele eram procurados pela polícia, em virtude de vários golpes. O que ela viu naquele sujeito? Essa era a pergunta que todos os habitantes daquela cidade faziam. 
Durante três anos, ela comeu o pão que o diabo amassou. Se conviver com o marido já era um inferno, com os sogros então... Ainda mais que esses dois eram a personificação do demônio.
Há quem fale que ela sofreu cárcere privado e, várias vezes, alguém tinha que avisá-la que a sogra estava chegando para ter tempo de trancar-se no quarto, porque essa queria assassiná-la.  Aquele pessoal teve a proeza de surrupiar todas as economias que ela havia juntado, depois de muito trabalho.
Lá estava ela, com a mão na frente e a outra atrás, e longe de ser aquela mulher esfuziante de outrora caminhando, com um olhar vago, em direção a casa dos pais, onde nunca deveria ter saído. 
-Como vai o seu marido? _ Perguntou alguém que a viu. 
-Morreu. _ Respondeu secamente.
-Eu sinto muito!
Ela não deu importância e ao e pensou: “Morreram todos, para mim”.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Poesia- Um Dia

Eric do Vale

Se não for Vai ser
Se não foi hoje
Amanhã, talvez,
Outro dia, quem sabe
Aqui estamos
E por aí nós vamos.


Conto- Elas E Eu

Eric do Vale

A minha mulher me mataria, pois associaria o nome dela a outra e o que é que eu iria dizer? Certamente, falaria:
-Amor, não é essa... Tem uma outra da chamada...
Então, eu me complicaria todo.
Sou adepto da ideia de que há coisas que nunca devem ser ditas, nem mesmo para um padre, durante a confissão, e a um analista, no meio de uma sessão.
Fico só me imaginando deitado em um divã dizendo: "Doutor, eu não sei o que há comigo, mas, de uns tempos pra cá, percebi que não posso conhecer nenhuma mulher com esse nome...".
A primeira... Ah, a primeira!  Quando me lembro dela, associo a nossa história a uma sinopse de novela. Por que acabou?  Sempre que me faço essa pergunta, tenho vontade de voltar no tempo e concertar toda a burrada que fiz.
A número dois, não sei o que foi que aconteceu. Ainda hoje, eu me pergunto: “Por que parou? Parou por quê?”. Eu a quis e ela bem sabe disso. Agora, é a terceira, fora uma outra...Além do nome, elas são iguais em tudo: beleza, personalidade e possuem muito fogo. Não sei o que faço! Por que eu? Por que elas?