quarta-feira, 28 de junho de 2017

Conto- O Silencio (Melhor Do Que Nada)

Eric do Vale



Não poderia deixar de perguntar pelo irmão dela, assim que nos vimos, pois esse tinha sido meu amigo de infância.
-Ele está muito bem. _ Disse ela.
- E o que ele está fazendo da vida?
- Trabalha em uma xácara como caseiro.  Ele é muito inteligente, tem uma bela caligrafia!
Não entendi o porquê dela ter me dito aquilo.  Eu devia ter uns dez ou onze anos de idade, quando ela me viu escrevendo alguma coisa e disse:
            - Sua letra continua igual.
Aquela resposta soou como um soco no estômago. Todo mundo me dizia que a minha letra não era bonita, inclusive ela. Mesmo assim, não deixava aquilo me abater e por isso, procurava aperfeiçoá-la sempre. Seria pura desonestidade de minha parte dizer que não fiquei chateado, quando ouvi aquele comentário
Somente agora, depois de ter alcançado a maturidade, percebi o quanto supervalorizei tal episódio, assim como entendi que ela não falou aquilo por mal. Mas, a maneira como expressou o seu ponto de vista...
Os elogios tecidos por ela a respeito da bela caligrafia do irmão possibilitaram-me pensar no seguinte: “Posso não ter uma boa caligrafia, mas possuo curso universitário e já tenho uma posição definida, ao contrário de você e do seu irmão.”. Aquelas palavras estavam atravessadas na minha garganta e não tinha nada a perder, caso lhe dissesse aquilo. Mas, recuei. Por quê? Foi melhor assim. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Conto- As Minhas Cunhadas

Eric do Vale



Para José Anselmo Souza de Oliveira

Deus, melhor do que ninguém, sabe o quanto amo a minha família:  esposa, filhos, genro e nora. Quanto aos demais... Refiro-me, especificamente, as minhas cunhadas, irmãs da minha esposa. Tenho pena dos maridos delas!
Reinaldo, por exemplo, morreu cedo, antes de completar 40 anos, por causa de um infarto fulminante. Era preciso ter muito estômago para aguentar aquela esposa dele. Ainda bem que ela mora longe da gente! Razão pela qual os nossos contatos além de serem restritos, permitem com que as nossas visitas tornem-se cada vez mais esporádicas.
Não muito diferente, é Joana: nunca, em toda a minha a vida, a vi recepcionar ninguém na residência dela; eu que o diga: sempre que chegava lá, era uma tromba e sequer me oferecia um café ou um copo d´ água.
-Você nem imagina o que aconteceu..._ Dizia ela.
Antes que eu perguntasse “O que houve?”, ela destrambelhava a língua para maldizer de quem quer que fosse. 
O marido dela é uma carga torta: não trabalha, bebe e arranja umas paqueras por aí. De vez em quando, ou quase sempre, Joana fica sabendo das aventuras dele e quando isso acontece... É aquela brigalhada. Como a minha esposa não gosta muito dele, isso torna-se mais um aditivo para tomar partido da irmã:
-Não se meta nisso, bem. _ Eu digo isso sempre.
-Mas é a minha irmã. E não é justo ela ficar casada com esse descarado.
Eles terminaram se separando judicialmente, mas reataram o matrimonio, pouco tempo depois. Creio que não demore muito para voltarem a brigar. Foi por causa disso que o filho deles resolveu casar, pretendendo sair daquela casa.
Janice não foge à regra: quando não é com o esposo, está arranjando briga com os vizinhos ou com qualquer um. A primeira nora dela, por exemplo, pediu divórcio, porque não aguentou o rojão: além de aturá-la, tinha que dividir o mesmo teto com ela e o sogro. Esse, então... Sem comentários! Percebe-se que o filho mais velho, e ex-marido dessa moça, teve a quem puxar, tanto no lado materno quanto paterno.
Janice, certa vez, precisou fazer uma cirurgia na coluna e não havia ninguém que ficasse com ela. A minha esposa contratou uma pessoa, mas essa pediu para sair, alguns dias depois.
Jussara é a cunhada que eu gosto mais. Minto, era.  No fundo, ela é uma pessoa maravilhosa, contudo a língua dela é de invejar qualquer casável. O marido dela, coitado... Não dá um passo sem, antes, consultá-la.
As esposas dos meus irmãos também não são diferentes, cada uma é pior do que a outra. Não pense que eu não goste das minhas cunhadas. Muito pelo contrário: elas lá e eu cá.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Conto- Ponto Final

Eric do Vale



“Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água.”
(Chico Buarque: Gota D`Água)

            Ao encontro deles dirigiu-se Eliseu, que foi logo dizendo:
– Ainda bem que vocês chegaram!
– Eliseu Simões? _ Perguntou um dos homens.
– Sou eu mesmo. Podemos ir?
Ele se deixou algemar e ser conduzido até a viatura, antes mesmo de receber voz de prisão. Todo mundo, naquele momento, deveria estar viajando ou cantando “Noite Feliz”, mas os jornais, no dia seguinte, noticiariam: “Homem Executa Família a Tiros, Durante A Ceia De Natal”.
A vizinhança haveria de lembrar-se das inúmeras vezes em que a polícia foi acionada, em função das constantes brigas do casal e, provavelmente, diriam: “Eu sabia que isso terminaria assim.”.
Não era de hoje que Eliseu desconfiava da infidelidade de sua esposa. Ao flagrá-la conversando, as escondidas, no celular, ele foi até o quarto, pegou o seu revólver, carregou-o e retornou para a cozinha. Finalizada a ligação, colocou-se diante dela e não balbuciou nenhuma palavra, deixando-a aflita:
 – O que você quer? _ Perguntou ela.
Ele permaneceu parado, sem dizer nada, impedindo a passagem dela, que gritou:
– Me deixe em paz!
– Você vai ficar em paz. _ Apontando a arma para ela.
Uma bala acertou o coração, antes mesmo que ela tivesse a chance de gritar por “socorro” ou pedir “clemência”. Após dar cabo na vida da sua esposa, Eliseu fez o mesmo como sogro, a sogra e o cunhado.
Um misto de frieza e serenidade transparecia em sua face, à proporção que o seu depoimento era tomado. Ciente de que, horas antes da ceia começar, os dois tiveram uma séria discussão, o delegado quis saber o motivo e Eliseu desabafou:
 – É uma pergunta que eu não vou saber te responder, porque brigávamos por tudo, o tempo todo. Não me lembro de nenhuma vez, nesses dez anos, que tenhamos ficado sem brigar, pois isso fazia parte da nossa rotina.
– Nunca pensaram em se separar?
– Até que tentamos, mas não deu certo.
– Por que não deu certo?
– Outra pergunta que eu não vou saber te responder.
Possuidora de um temperamento hostil, ela estava sempre em atrito com os vizinhos, agredindo-os física e verbalmente, conforme registrados nos Boletins de Ocorrências. Até o seu marido abriu uma queixa contra ela, por ter esfaqueado o braço dele.
Constantemente, ela o humilhava, chamando-o de imprestável e desprezível sem se importar com a presença de terceiros, ao ponto de cuspir-lhe na face. Os familiares dela, por sua vez, intervinham em seu favor, deixando-o em uma posição vulnerável.
Consumado o assassinato, Eliseu tomou um cálice de vinho tinto, jantou e logo em seguida, discou para a polícia:
– Alô, gostaria de fazer uma denúncia.
– Pois não.
– Houve um crime, aqui na rua... Edifício... Número...
– O que aconteceu?
– Matei a minha mulher, meu sogro, minha sogra e o meu cunhado. Estou esperando por vocês na portaria, tenham boa noite e um FELIZ NATAL!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Artigo- Sem Saída

Eric do Vale

Convertida em bola de neve, a atual crise política que permeia este país vem adquirindo enormes proporções, resultando em uma onda de pessimismo sobre a população.
A lacuna deixada por Dilma Rousseff, após o afastamento dessa da presidência da República, permitiu com o que seu sucessor, depois de empossado, tomasse medidas ortodoxas e, um tanto quanto, esdruxulas. Deixando, assim, os nossos compatriotas estarrecidos.
Agora, a população vê-se obrigada a irem as ruas para clamarem “Fora Temer”. Entretanto, existe um importante detalhe do qual todos estão se esquecendo: se, por um acaso, o atual presidente da República cair, quem ficará no lugar dele? 
            Pela ordem, assume o presidente da Câmara dos Deputados e se esse vier a ser afastado, assume o presidente do Senado. Depois desse, caso não haja opção, o presidente do STF é quem poderá vir a ocupar a presidência da República.
            Ademais, faltam dois anos para Temer encerrar a sua gestão e sendo assim, há um outro fator determinante, caso ele venha a ser afastado: vacância. Nessas condições, o Congresso Nacional promoverá uma eleição indireta, num prazo de trinta dias. Um candidato escolhido pelo Congresso Nacional! Alguém já parou para pensar nisso?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Conto- A Entrevista

Eric do Vale



Para Murilo Antunes Alves

Golpe De Sorte

            - O que é que você está me dizendo? _ Indaguei.
            -Isso que você acabou de ouvir.
Aquilo não podia ser verdade!
-Quando foi que isso aconteceu? _ Perguntei.
            -De madrugada.
            Para mim, aquilo era inaceitável!
Telefonei-lhe, de tarde, e me identifiquei, dizendo quem eu era e onde trabalhava; perguntei se havia alguma possibilidade de entrevistá-lo naquele mesmo dia e ele falou:
-Pode ser na próxima semana?
-Por que não, hoje?
Ele relutou, deu mil e uma desculpas até que eu tirei uma carta da manga:
- Podemos tomar um café?
Ele, então, baixou a guarda, mas foi enfático.
-Pode vir aqui, em casa, para tomarmos um cafezinho, não tem nenhum problema. Mas, não vou lhe conceder nenhuma entrevista.
Aceitei aquela condição imposta por ele e mesmo assim, levei, por precaução, o gravador portátil e um técnico da rádio.
A lembrança dele nos recepcionando no apartamento, onde residia, permeou no meu inconsciente, na medida em que eu ia me recompondo do susto, quando recebi aquela notícia.
Além de abatido, percebi o quanto aquele homem havia envelhecido. Logo que nos acomodamos no sofá da sala, a esposa dele chegou dizendo:
-O fogão não está funcionando.
Sorte a minha ter trazido o técnico da rádio! Como esse tinha habilidade em consertar equipamentos eletrônicos, pedi que acompanhasse a esposa dele até a cozinha e desse uma olhada no fogão.
Então, lhe fiz a seguinte proposta:
-Se ele consertar o fogão, o senhor me concede uma entrevista, nesse exato momento?
-Isso é chantagem!
-De jeito nenhum, isso é uma troca de favores.
Ele ficou taciturno e eu insisti:
- Uma conversa informal, o que me diz?
Ele terminou cedendo.
            Eu sabia que aquele entrevista representava mais do que uma missão cumprida, mas só tive certeza disso quarenta e oito horas depois.

Esperando Lilibeth

Nunca imaginei que Monteiro Lobato tivesse concedido uma entrevista em áudio, por isso resolvi procurá-la na internet. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que eu ouvia a voz dele.
Escutei na integra aquela entrevista e o que mais me chamou a atenção foram estas palavras dele “Ainda agora mesmo, eu recebi uma senhora, mãe da Lilibeth; essa Lilibeth é uma menina encantadora que mora na rua Monte Alegre e que prometeu me visitar. Eu estou ansiosamente a espera da visita da Lilibeth; eu considero uma visitinha da Lilibeth um prêmio.”.

Será que essa menina chegou a visitá-lo? Considerando que ele morreu dois dias depois de conceder essa entrevista, acho muito difícil. Alguém, pelo menos, teve a curiosidade de procurá-la e saber quem era ela? Lilibeth chegou, pelo menos a tomar conhecimento dessa entrevista?




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Artigo- Pano Pra Manga

Eric do Vale



Questionar a existência divina é algo que, na maioria dos casos, tende a ser tão corriqueiro quanto esdruxulo. É de praxe todo aquele que se diz ateu ou agnóstico fazer a clássica pergunta: “Deus existe?”.
Aqueles que seguem alguma religião, fundamentados nas agradas escrituras, responderão que sim e realçarão: “Está escrito n Bíblia que...”. Mesmo assim, os que não creem ou duvidam da existência divina, sem se darem por satisfeitos, persistirão na pergunta: “Deus existe?”. 
Como tal pergunta é de extrema delicadeza, qualquer indivíduo, no auge de sua sensatez, terminaria, nessas condições, de abster-se de responder a esse questionamento. Estou muito longe de alcançar o posto de questionador mor da existência divina ou de qualquer outro assunto. Tão pouco, essa não é a minha pretensão, pois encontro-me muito aquém de tal função.
Enquanto uns se fundamentam nas sagradas escrituras; outros, de uma forma bem iconoclasta, afirmam que a Bíblia, e outros livros espirituais, não passa de calhamaço redigido por homens em que cada um tem a capacidade de interpretá-lo da sua maneira.
No meio de tantas divergências, uma coisa é certa: independente de que o indivíduo siga uma religião, ou não, existirá sempre o livre arbítrio pelo qual todo mundo sabe tem consciência de seus atos.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Conto- Armadilha do Destino

Eric do Vale



Duarte, com três dias de antecedência, avisou a esposa que teria plantão. Não havia como ela duvidar, porque, casados há cinco anos, sabia perfeitamente que depois dela, a segunda paixão do marido era o trabalho.
            Depois de sair da delegacia, no início da noite, Duarte passou pelo bar onde Peixoto, seu colega de expediente, estava:
-Vai uma geladinha? _ Perguntou Peixoto.
Ele bebeu um pouco e depois, foi embora.
-Vai cedo, cara! _ Disse Peixoto.
Duarte não falou nada e Peixoto continuou:
-Nem precisa dizer, porque eu já sei. Depois, quero saber de tudo.
Dias atrás, Peixoto aproximou-se de Duarte e perguntou:
-Tem compromisso para hoje, a noite?
Peixoto notou que o colega o encarou de uma forma meio atravessada e falou:
-Não é nada disso que você está pensando.
-Eu não estou pensando nada.
-Conheci uma garota ... Um espetáculo!
Peixoto forneceu-lhe o contato da garota e disse:
-O nome dela é Dóris, você não vai se arrepender.
Duarte, minutos depois, enviou-lhe uma mensagem e logo, foi correspondido. Ficou acertado de que, dentro de três dias, eles iriam se encontrar.
Na direção do seu carro, Duarte estava certo de que, naquela hora, a esposa dele deveria estar na igreja ou assistindo a novela e pensou: “Mulheres... São todas iguais”.
Imaginou a noite de prazer que teria com Dóris constatando que aquela seria mais uma, dentre muitas outras, aventuras amorosas que teve; depois, tudo voltaria ao normal e ele chegaria em casa, onde a esposa o receberia perguntando:
-Como foi o dia, amor?
-Exaustivo.
Alguns metros de distância, Duarte telefonou para Dóris dizendo:
-Já cheguei.
-Eu estou na calçada.
 Ele avistou uma mulher de mini short jeans, blusa top preta na calçada e pensou: “É ela!”. Aproximou-se, abriu a porta e ascendeu a luz para cumprimentá-la:
-Hortência? _ Perguntou Duarte.
-Germano!
Diante daquela situação, marido e mulher ficaram sem saber o que fazer.