quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Conto- A Entrevista

Eric do Vale


Para Murilo Antunes Alves

Golpe De Sorte

            - O que é que você está me dizendo? _ Indaguei.
            -Isso que você acabou de ouvir.
Aquilo não podia ser verdade!
-Quando foi que isso aconteceu? _ Perguntei.
            -De madrugada.
            Para mim, aquilo era inaceitável!
Telefonei-lhe, de tarde, e me identifiquei, dizendo quem eu era e onde trabalhava; perguntei se havia alguma possibilidade de entrevistá-lo naquele mesmo dia e ele falou:
-Pode ser na próxima semana?
-Por que não, hoje?
Ele relutou, deu mil e uma desculpas até que eu tirei uma carta da manga:
- Podemos tomar um café?
Ele, então, baixou a guarda, mas foi enfático.
-Pode vir aqui, em casa, para tomarmos um cafezinho, não tem nenhum problema. Mas, não vou lhe conceder nenhuma entrevista.
Aceitei aquela condição imposta por ele e mesmo assim, levei, por precaução, o gravador portátil e um técnico da rádio.
A lembrança dele nos recepcionando no apartamento, onde residia, permeou no meu inconsciente, na medida em que eu ia me recompondo do susto. Além de abatido, percebi o quanto aquele homem havia envelhecido.
Logo que nos acomodamos no sofá da sala, a esposa dele chegou dizendo:
-Zé Bento, o fogão não está funcionando.
Sorte a minha ter trazido o técnico da rádio! Como esse tinha habilidade em consertar equipamentos eletrônicos, pedi que acompanhasse a esposa dele até a cozinha e desse uma olhada no fogão. Então, lhe fiz a seguinte proposta:
-Se ele consertar o fogão, o senhor me concede uma entrevista para a rádio, nesse exato momento?
-Isso é chantagem!
-De jeito nenhum, isso é uma troca de favores.
Ele ficou taciturno e eu insisti:
- Uma conversa informal, o que me diz, seu Lobato?
Ele terminou cedendo.
            Eu sabia que aquele entrevista representava mais do que uma missão cumprida, mas só tive certeza disso quarenta e oito horas depois. 

Esperando Lilibeth

Nunca imaginei que Monteiro Lobato tivesse concedido uma entrevista em áudio, por isso resolvi procurá-la na internet. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que eu ouvia a voz dele.
Escutei na integra aquela entrevista e o que mais me chamou a atenção foram estas palavras dele “Ainda agora mesmo, eu recebi uma senhora, mãe da Lilibeth; essa Lilibeth é uma menina encantadora que mora na rua Monte Alegre e que prometeu me visitar. Eu estou ansiosamente a espera da visita da Lilibeth; eu considero uma visitinha da Lilibeth um prêmio.”.
Será que essa menina chegou a visitá-lo? Considerando que ele morreu dois dias depois de conceder essa entrevista, acho muito difícil. Alguém, pelo menos, teve a curiosidade de procurá-la e saber quem era ela? Lilibeth chegou, pelo menos a tomar conhecimento dessa entrevista?






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