terça-feira, 18 de julho de 2017

Conto- Cenas Dos Próximos Capítulos

Eric do Vale


A televisão estava sintonizada naquele canal, onde, dentro de alguns instantes, iria ao ar mais um capítulo daquela novela. Eis que o locutor, naquele horário, fez o seguinte comunicado: “Por motivo de força maior, hoje, será reapresentado o capítulo anterior.”. Ninguém entendeu direito o motivo daquele aviso e o locutor finalizou: “A novela voltará a ser exibida amanhã”.
Como consolo, restava rever o capitulo de ontem. A noite, naquele mesmo horário, a situação foi a mesma: o narrador, dessa vez, disse que a novela voltaria a ser exibida na próxima semana.
...

Ela possuía os ingredientes necessários para uma trama, por isso foi escrita de maneira despretensiosa. Gradualmente, a telenovela foi arrebatando uma boa margem de telespectadores e em seguida, tornou-se líder absoluta de audiência naquele horário. Entretanto, a emissora de televisão que produzia aquela novela vinha, há muito tempo, atravessando uma enorme crise financeira.
Diariamente, os funcionários reclamavam dos salários que estavam atrasados, há mais de dois meses. Algumas programações vinham sendo retiradas das grade abruptamente
A produção e o elenco da novela deram prosseguimento, assim como os autores eu não cessavam de escreverem os capítulos. Todos tinham interesse de levar aquele trabalho adiante, no entanto a emissora sucumbiu à crise e demitiu todos sem aviso prévio.

...

Sete dias depois, acomodados no sofá, todos aguardavam ansiosamente a volta daquela trama, quando foram surpreendidos pelo seguinte aviso: “Por motivo de força maior, iremos reapresentar o compacto de uma outra novela”.
Tamanha foi a perplexidade, que todos se entreolharam sem saber direito o que dizer. Não escondendo a resignação que, naquele momento, sentiam, cada um foi se levantando.
O silencio só foi quebrado, quando alguém desligou a televisão e disse dum palavrão qualquer. Aquela revolta não era para menos: por que aquilo foi acontecer justamente quando faltavam vinte capítulos para o termino!


domingo, 16 de julho de 2017

Crônica- Nem Tudo É Aquilo Que Parece Ser

Eric do Vale


Uma senhora comentou que, quando jovem, foi repreendida pela mãe, ao cantar a música Mon Amour Meu Bem Ma Femme. Só por causa da última palavra, feeme.  Além de estranho, esse escarcéu, para os dias de hoje, pode ser considerado como algo engraçado, visto que tal termo não apresenta nenhum significado chulo
Qualquer pessoa que se interesse em aprender uma língua estrangeira perceberá, quando procurar no dicionário, que femme nada mais é do que mulher. Assim que comecei a estudar francês, observei que, na maioria das vezes, alguns termos estrangeiros, quando incorporados na gíria brasileira, adquirem um sentido pejorativo.
A coerência dessa afirmativa pode ser constatada no final do século XIX e início do Século XX, período em que a população brasileira aderiu ao padrão cultural francês. Um exemplo típico são os bares, confeitarias e restaurantes que passaram a ser chamados cafés ou bestrau.
Os bordéis brasileiros também adotaram esse tipo de comportamento, daí alguns termos utilizados pelas “femmes” desse estabelecimento. Por isso, a língua francesa passou a ser hostilizada pela ala tradicional e puritana do nosso país. Mesmo que, atualmente, o inglês ocupe o pedestal de idioma universal a língua francesa, nos dias atuais, apresenta, injustamente, um quê de pecaminosidade, aqui no Brasil.  
Rendez-vous é um exemplo disso: em seu país de origem, significa encontro; enquanto que aqui, no nosso país, essa palavra apresente uma outra conotação. E, diga-se de passagem, bem pejorativa.
Da mesma forma, é o termo Madamme: uns poderão achar que essa palavra esteja vinculada a uma mulher refinada e detentora de posses, quando, na verdade, era utilizada pelas cafetinas.
Ninguém tem obrigação de conhecer uma língua de forma tão aprofundada, mas, diante desse exemplo, torna-se necessário possuir uma noção básica na iminência de evitar-se certos choques culturais.


sábado, 8 de julho de 2017

Conto- Amor- Próprio

Eric do Vale


“Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha”
(Meu Mundo E Nada Mias: Guilherme Arantes)

I

Por pouco, não cometeram um desatino. Acalmado os ânimos, era necessário dar aquilo por encerrado:
-Arrume as suas coisas e vá embora daqui.
O que seria mais doloroso, dizer ou ouvir aquela frase? Depois de tantos anos, não era justo! Se houvesse traição de uma das partes, aquilo seria compreensível; mas, por causa de uma rusga...

II

-Nunca é tarde para recomeçar.
-Estou completamente de acordo e sabe que pode contar comigo para o que der e vier.
-Agradeço muito a sua preocupação; agora, preciso colocar a cabeça no lugar. Apesar de tudo, não guardo nenhuma mágoa.
-Sei disso. Quem dera, se todos fossem assim. Olha, não sou só eu que acha isso de você: conheço alguém que também sabe reconhecer esse seu valor.   E não sou só eu que pensa assim sobre você. Muitos, inclusive....
-Não está se referindo a ...
-Sim, estou. Tenho certeza de que se você pedir...
-Eu poderia fazer isso, mas tenho brio.

...
- De uns tempos para cá, venho notando que você tem falado pouco, andado distante de tudo. Estou aqui, a horas, conversando com você e sequer prestou atenção no que te disse.
- Eu estou com a cabeça tão atordoada, me desculpe!
-Como te disse: não é de hoje que você está assim. E até sei por que. Sejamos realistas: você nunca se conformou com esse rompimento
-Para te dizer a verdade: não. Eu, por mim, voltaria atrás.

-E o que te impede de fazer isso?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Conto- A Minha “Primeira” Causa

Eric do Vale



Pouco tempo depois de ter conseguido a carteirinha da OAB, alguém que eu conhecia, de longa data, telefonou-me requisitando os meus serviços.
-O que posso ser útil? _ Perguntei.
-Quero mover um processo contra... Eu não aguento mais! Todo dia, é esse inferno!
Eu já sabia do que se tratava e não condenava de fazer tais comentários, visto que qualquer um também agiria da mesma maneira.
 Todo mundo daquele prédio tinha conhecimento das homéricas brigas daquela família. Várias vezes, a polícia foi acionada para conter aquela tensão toda. Daí, a alcunha de “casa de doido”. 
-Todo mundo tem seus atritos, mas pelo amor de Deus! Ninguém é obrigado de escutar tudo aquilo É de manhã, de tarde e de noite escutando gritos e xingamentos! Você sabe o que é isso? _ Disse a minha futura cliente.
Entendia perfeitamente aquele desabafo, mas abdiquei da minha primeira causa, porque eu também conhecia aquele pessoal.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Conto- O Silencio (Melhor Do Que Nada)

Eric do Vale



Não poderia deixar de perguntar pelo irmão dela, assim que nos vimos, pois esse tinha sido meu amigo de infância.
-Ele está muito bem. _ Disse ela.
- E o que ele está fazendo da vida?
- Trabalha em uma xácara como caseiro.  Ele é muito inteligente, tem uma bela caligrafia!
Não entendi o porquê dela ter me dito aquilo.  Eu devia ter uns dez ou onze anos de idade, quando ela me viu escrevendo alguma coisa e disse:
            - Sua letra continua igual.
Aquela resposta soou como um soco no estômago. Todo mundo me dizia que a minha letra não era bonita, inclusive ela. Mesmo assim, não deixava aquilo me abater e por isso, procurava aperfeiçoá-la sempre. Seria pura desonestidade de minha parte dizer que não fiquei chateado, quando ouvi aquele comentário
Somente agora, depois de ter alcançado a maturidade, percebi o quanto supervalorizei tal episódio, assim como entendi que ela não falou aquilo por mal. Mas, a maneira como expressou o seu ponto de vista...
Os elogios tecidos por ela a respeito da bela caligrafia do irmão possibilitaram-me pensar no seguinte: “Posso não ter uma boa caligrafia, mas possuo curso universitário e já tenho uma posição definida, ao contrário de você e do seu irmão.”. Aquelas palavras estavam atravessadas na minha garganta e não tinha nada a perder, caso lhe dissesse aquilo. Mas, recuei. Por quê? Foi melhor assim. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Conto- As Minhas Cunhadas

Eric do Vale



Para José Anselmo Souza de Oliveira

Deus, melhor do que ninguém, sabe o quanto amo a minha família:  esposa, filhos, genro e nora. Quanto aos demais... Refiro-me, especificamente, as minhas cunhadas, irmãs da minha esposa. Tenho pena dos maridos delas!
Reinaldo, por exemplo, morreu cedo, antes de completar 40 anos, por causa de um infarto fulminante. Era preciso ter muito estômago para aguentar aquela esposa dele. Ainda bem que ela mora longe da gente! Razão pela qual os nossos contatos além de serem restritos, permitem com que as nossas visitas tornem-se cada vez mais esporádicas.
Não muito diferente, é Joana: nunca, em toda a minha a vida, a vi recepcionar ninguém na residência dela; eu que o diga: sempre que chegava lá, era uma tromba e sequer me oferecia um café ou um copo d´ água.
-Você nem imagina o que aconteceu..._ Dizia ela.
Antes que eu perguntasse “O que houve?”, ela destrambelhava a língua para maldizer de quem quer que fosse. 
O marido dela é uma carga torta: não trabalha, bebe e arranja umas paqueras por aí. De vez em quando, ou quase sempre, Joana fica sabendo das aventuras dele e quando isso acontece... É aquela brigalhada. Como a minha esposa não gosta muito dele, isso torna-se mais um aditivo para tomar partido da irmã:
-Não se meta nisso, bem. _ Eu digo isso sempre.
-Mas é a minha irmã. E não é justo ela ficar casada com esse descarado.
Eles terminaram se separando judicialmente, mas reataram o matrimonio, pouco tempo depois. Creio que não demore muito para voltarem a brigar. Foi por causa disso que o filho deles resolveu casar, pretendendo sair daquela casa.
Janice não foge à regra: quando não é com o esposo, está arranjando briga com os vizinhos ou com qualquer um. A primeira nora dela, por exemplo, pediu divórcio, porque não aguentou o rojão: além de aturá-la, tinha que dividir o mesmo teto com ela e o sogro. Esse, então... Sem comentários! Percebe-se que o filho mais velho, e ex-marido dessa moça, teve a quem puxar, tanto no lado materno quanto paterno.
Janice, certa vez, precisou fazer uma cirurgia na coluna e não havia ninguém que ficasse com ela. A minha esposa contratou uma pessoa, mas essa pediu para sair, alguns dias depois.
Jussara é a cunhada que eu gosto mais. Minto, era.  No fundo, ela é uma pessoa maravilhosa, contudo a língua dela é de invejar qualquer casável. O marido dela, coitado... Não dá um passo sem, antes, consultá-la.
As esposas dos meus irmãos também não são diferentes, cada uma é pior do que a outra. Não pense que eu não goste das minhas cunhadas. Muito pelo contrário: elas lá e eu cá.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Conto- Ponto Final

Eric do Vale



“Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água.”
(Chico Buarque: Gota D`Água)

            Ao encontro deles dirigiu-se Eliseu, que foi logo dizendo:
Ainda bem que vocês chegaram!
Eliseu Simões? _ Perguntou um dos homens.
Sou eu mesmo. Podemos ir?
Ele se deixou algemar e ser conduzido até a viatura, antes mesmo de receber voz de prisão. Todo mundo, naquele momento, deveria estar viajando ou cantando “Noite Feliz”, mas os jornais, no dia seguinte, noticiariam: “Homem Executa Família a Tiros, Durante A Ceia De Natal”.
A vizinhança haveria de lembrar-se das inúmeras vezes em que a polícia foi acionada, em função das constantes brigas do casal e, provavelmente, diriam: “Eu sabia que isso terminaria assim.”.
Não era de hoje que Eliseu desconfiava da infidelidade de sua esposa. Ao flagrá-la conversando, as escondidas, no celular, ele foi até o quarto, pegou o seu revólver, carregou-o e retornou para a cozinha. Finalizada a ligação, colocou-se diante dela e não balbuciou nenhuma palavra, deixando-a aflita:
  O que você quer? _ Perguntou ela.
Ele permaneceu parado, sem dizer nada, impedindo a passagem dela, que gritou:
Me deixe em paz!
Você vai ficar em paz. _ Apontando a arma para ela.
Uma bala acertou o coração, antes mesmo que ela tivesse a chance de gritar por “socorro” ou pedir “clemência”. Após dar cabo na vida da sua esposa, Eliseu fez o mesmo como sogro, a sogra e o cunhado.
Um misto de frieza e serenidade transparecia em sua face, à proporção que o seu depoimento era tomado. Ciente de que, horas antes da ceia começar, os dois tiveram uma séria discussão, o delegado quis saber o motivo e Eliseu desabafou:
  É uma pergunta que eu não vou saber te responder, porque brigávamos por tudo, o tempo todo. Não me lembro de nenhuma vez, nesses dez anos, que tenhamos ficado sem brigar, pois isso fazia parte da nossa rotina.
Nunca pensaram em se separar?
Até que tentamos, mas não deu certo.
Por que não deu certo?
Outra pergunta que eu não vou saber te responder.
Possuidora de um temperamento hostil, ela estava sempre em atrito com os vizinhos, agredindo-os física e verbalmente, conforme registrados nos Boletins de Ocorrências. Até o seu marido abriu uma queixa contra ela, por ter esfaqueado o braço dele.
Constantemente, ela o humilhava, chamando-o de imprestável e desprezível sem se importar com a presença de terceiros, ao ponto de cuspir-lhe na face. Os familiares dela, por sua vez, intervinham em seu favor, deixando-o em uma posição vulnerável.
Consumado o assassinato, Eliseu tomou um cálice de vinho tinto, jantou e logo em seguida, discou para a polícia:
Alô, gostaria de fazer uma denúncia.
Pois não.
Houve um crime, aqui na rua... Edifício... Número...
O que aconteceu?
Matei a minha mulher, meu sogro, minha sogra e o meu cunhado. Estou esperando por vocês na portaria, tenham boa noite e um FELIZ NATAL!